sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.05.2015

Um retrato desconhecido

Nas faces guarda os sulcos marcados a memória das colheitas de uma vida. E uma vida não chega apenas para contar das colheitas os dias em que o sol ainda não nascia em seus olhos de amêndoa, vespertinos. Hoje deixam-se descair como a noite; um rasgo de luz sobre o breu das colinas a silenciar os animais que comungam da aragem.

Soubéssemos nós da força dos braços, de como ainda dele se padecem e se levantam, quais riachos, pequenos e suaves ainda as agruras do fado descem. Sabe-se tão pouco desta terra intensivamente arada, mãos feridas e saradas a cada nova madrugada, porque a madrugada é o tempo de nascer e prontamente ser e não existe ser que nesta Terra não viva.

Na nossa terra vive até aquele que jaz – No eco das vozes que as paredes guardam, regozijando-se, por conseguirem então cantar.

Cantam paredes e cantam vozes que contam mais do que há para contar; sabem da história os remorsos e as felicidades de a história lhes ter dado morada à beira-rio.

Que é este azul cristalino e profundo que se estende, senão lágrimas recusando sal de quem da beira do Alqueva fez o seu lugar? – Lugar mais que lugar, lugar de ficar! Pois que todos que o visitam o querem consigo levar e não existe quem o leve tão grandiosamente quanto aqueles que o sabem amar.

Amor. O amor denota-se nas mãos engelhadas, cansadas de dar forma ao pó original, para lá do amor um grande e doloroso amar. – nunca se cansa de contemplar a sua obra e a sua obra é já doutros para (nunca) terminar.
                
Estendem-se nas tardes tórridas na soalheira do que a natureza dá e entoam saudades de menino – de pernas ágeis a saltar muros tão mais novos, de pés menos tortos a calcorrear pedras menos desgastadas- que esquecem repentinamente quando é hora de voltar a casa.
               
  As faces mais jovens ficam perdidas entre a imensidão do céu e a da terra - procuram saber qual a magia e enquanto o perguntam já rostos desfigurados de tempo esperam para responder que dos segredos do mundo pouco se sabe.

                
             Não se conhece Monsaraz sem se conhecer as suas gentes, pois as suas gentes são quem faz Monsaraz. Não se lembram bem as ruas se se descura a menina de outro tempo sentada à porta vendo os transeuntes passar. Não se podem descobrir as doçarias sem o simpático jovem do café mais próximo, nem saber quão confortável é o passeio sem o senhor que avança e escala as ruelas ainda com fôlego para um bom dia bem frisado.
                
              É por isso que este retrato é desconhecido – porque não se limita a ser retratado; não se permite embelezar mais do que aquilo que demonstra e qualquer descrição peca pela falência das palavras. No entanto nunca mais se esquece depois de ser apreciado.

Ficam-nos os olhos amendoados e as faces envelhecidas, ficam-nos as mãos engelhadas e enegrecidas pelo sol e pela terra, fica-nos a sensação das rochas a passar por baixo das palmas dos pés e o sonoro calmo e paciente de uma terra alentejana.

E se nos acautelarmos em atenção, o retrato não é apenas exterior. Vive connosco e depois vive através de nós.


Essa, jovens, seja talvez a principal magia. 


Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.05.2015
(Fotografia de João Fructuosa)

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Associação Projecto Raia Alentejana

“… A Raia é a fronteira entre Portugal e Espanha, mas é muito mais, é História e histórias, é gente e costumes herdados de gerações, é de uma beleza natural extraordinária.
Longe das grandes cidades ficou um património intocado, vestígios de povoados pré-históricos e dos seus monumentos em pedra, fortificações e templos dos vários povos que conquistaram e defenderam estas terras a que chamaram suas, Celtas, Iberos, Romanos, Germânicos, Islâmicos, Castelhanos e agora Portugueses.
Da mistura de todos os que por aqui ficaram resulta uma identidade cultural única que é mantida pelo povo da Raia, nos seus costumes e tradições, no seu artesanato e gastronomia, na arquitectura e no falar, mas principalmente na sua relação com a terra.
Para as gentes da Raia a família, os vizinhos e a terra são o mais importante. Os ritmos são os do campo, das estações, do semear e do colher. Todos têm a sua horta e os seus animais, sempre dispostos a ajudar, a dar uma couve, umas laranjas ou um dedo de conversa… .



A Associação Projecto Raia Alentejana, surgiu em 2011, criada por Luis Lobato de Faria e Eunice Gomes.

O dinamismo de ambos, aliado ao gosto pela história, pela aventura e pelos passeios ao ar livre, leva-os a percorrer quilómetros e quilómetros de terras alentejanas à procura de “História e histórias”, através dos eventos que regularmente a APRA organiza.

Esta Associação, sem fins lucrativos, está agora apostada na divulgação do Portal “Visit Alqueva”, de modo a que consiga uma interacção maior entre as empresas locais, para que em conjunto possam explorar os pontos de interesse e rotas existentes na zona da Raia Alentejana. 

Ideia que fica bem patente nas palavras que Luis Lobato de Faria, um dos impulsionadores da APRA, deixou aqui ao Monsaraz em fotos:

"Sendo o Turismo o futuro da região temos que conquistar mercados, criar um produto dentro do Alentejo, as margens do Alqueva. Estamos a namorar os nossos vizinhos espanhóis, estamos a cortejar a comunidade do Norte da Europa aqui residente, temos que esquecer as fronteiras dos Concelhos e das políticas, trabalhar em equipa e em rede é essencial. A nossa região é única devido à sua fortíssima Identidade Cultural construída por gerações de diferentes povos e culturas. O nosso objectivo é precisamente preservar a Identidade Cultural, manter a Raia viva, a paisagem humanizada, temos que trazer gente para visitar e para cá viver."


Visitem e explorem a Raia: