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- Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)
- Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)
- Crónicas do Alto da Vila (por Manuel Manços)
- Crónicas do Alto da Vila (por Rui Dias José)
- Curiosidades e Segredos de Monsaraz
- Monsaraz ilustrado (por Carlos Dias)
- Noite de Fados em Monsaraz (por Manuel Manços)
quarta-feira, 10 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.06.2015
Escolho o caminho de
S. Pedro, o maior centro oleiro, para voltar a Monsaraz e às crónicas do Alto
da Vila, mas sem nada previsto quedo-me pelo sopé onde estendido como preguiçoso
lagarto ao sol, encontro o Telheiro e a minha velha escola que um benemérito da
terra, de nome Caeiro, percebendo a importância do ensino, mandou construir em
tempos idos.
Edifício simples de
arquitetura semelhante a muitos outros do estado novo. Pequeno átrio de entrada
a dar acesso a uma única sala que reunia as quatro classes. Cá fora três arcos
a sustentar um alpendre que servia de abrigo aos desacatos do tempo e um
terreno murado que durante o recreio se transformava em torneios de pião, do
berlinde, jogo do eixo ou do funcho. Todas as brincadeiras tinham um calendário
preciso que era aceite sem contestação.
Na sala de aula o mobiliário rudimentar precisava de reforma.
A secretária de pinho da professora, com duas gavetas onde se escondia uma
palmatória que nunca vimos, mas que a D. Conceição, bondosa e paciente assegurava
existir. O quadro negro, três filas de carteiras de dois lugares onde se anichavam
separadamente as raparigas e os rapazes. Ao lado da lareira que poucas vezes
servia, um armário que continha alguns livros, o boião da tinta permanente que
haveria de encher os pequenos tinteiros e um saco de leite em pó que em certas
ocasiões era distribuído pela turma. Creio que no Natal e na Páscoa.
Ainda hoje recordo aquela bola que se formava, pegava ao céu
da boca e ia derretendo lentamente, deixando um sabor que forrava as paredes do
estômago com sumarenta quietude. Na parede dois mapas, o do continente e o das
colónias, terras de costumes bárbaros onde o Manuel que era o sapateiro da
aldeia já quase mestre, morreu com um tiro na barriga. Gastos do uso, os ditos,
meio desfiados mais pareciam pergaminhos, e a ladear o quadro de ardósia as
figuras imponentes do regime: O almirante de fato igual ao homem dos gelados a
que não faltava o boné branco e o professor Salazar, muito sisudo, de olho na
turma, não fosse haver alguma sublevação! No meio, um Cristo crucificado e
tornado escuro pelo óxido do tempo.
Estaciono o carro à
sombra do posto da GNR e bem guardado, fico ali com o silêncio a pesar-me nos
ombros, o dia a queimar-me em palavras … as recordações a empapar-me a memória
enquanto o sino de Monsaraz bate as duas da tarde.
A minha escola! A
minha mas também a do Zé António, do Evaristo, do Chico, do Inácio, da Paula, da
Catarina, da Suzete, da Benvinda e muitos outros que ali aprenderam, trocaram
saberes, partilharam momentos e fizeram adormecer a manhã soletrando num som
monocórdico a cantilena morna da tabuada. Ali aprendemos de cor e salteado os
rios e afluentes, as serras e os mares e de dedo indicador espetado sobre o
mapa, viajámos por comboios imaginários.
Um dia a escola
fechou, como tantas outras por esse país fora.
Era fácil esgrimir
argumentos falaciosos. Fazer outras contas que não as da aritmética simples que
aprendemos. Outros jogos que não os do antigo pátio murado.
Vieram senhores
ilustres falar de progresso, de tecnologias, de rácios que ninguém percebia e o
último miúdo vestido de bibe aos quadradinhos azuis, deixou rolar duas
lágrimas, (como o tal menino do quadro das feiras que toda a gente pendurava na
parede da sala), antes de entrar para o autocarro que o iria levar para outra
escola mais distante para satisfazer os desejos economicistas dos senhores bem
falantes que usam fato escuro e sorriso para todas as ocasiões.
CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.06.2015
(fotografia da CMRM)
(fotografia da CMRM)
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Monsaraz 360
“Monsaraz 360, visita interativa a uma das mais belas vilas de Portugal.
Monsaraz 360 (www.monsaraz360.pt) é o novo site interactivo, que permite conhecer a história e o património arquitetónico da vila medieval de Monsaraz. Este é um dos primeiros sites nacionais com uma visita interativa completa a uma localidade através da tecnologia 360º HDR e de novos media para computador e smartphones.
O site é bilingue, em português e inglês, tem galerias de imagens dos fotógrafos António Caeiro, João Fructuosa e David Ramalho, a história da vila, visita interativa 360 graus e o mapa de localização com informação das povoações mais próximas. As empresas locais poderão ter visitas interativas e assim ficarem associadas ao projeto.
Na visita 360 graus é possível navegar de forma interativa através dos pontos mais importantes de Monsaraz e aceder a informações sobre a sua história. O percurso começa na Ermida de S. Bento, localizada no exterior das muralhas da vila, dando a possibilidade de conhecer as paisagens com temperaturas mais elevadas do Alentejo e o verde que é acompanhado por um pôr-do-sol em mês primaveril.
No segundo ponto, a porta da vila, começa a descoberta das ruas históricas de uma das mais belas vilas de Portugal, percorrendo a Rua Direita, o largo de D. Nuno Alvares Pereira e a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa até ao castelo de Monsaraz, com vista panorâmica para a paisagem da região.
A visita interativa faz-se por ícones que identificam o local mais próximo, tal como se fosse um guia turístico interativo ilustrado, e através de pontos apresenta a história, alojamentos, restaurantes e lojas de artesanato e de produtos regionais. Poderá ser feita também através de um mapa com a tecnologia Google Maps para uma localização mais abrangente e miniaturas de acesso rápido ao ponto de interesse.
Foram realizadas versões da visita para computador, tablet e telemóvel (sistemas operativos Android e iOS). Através de dispositivos móveis é possível a quem visita a vila medieval ter acesso a informações úteis dos principais pontos de Monsaraz, ao Guia Turístico de Reguengos de Monsaraz (em formato pdf) e a eventos que vão acontecer na localidade. Os utilizadores podem ainda mostrar fotografias e contar a sua experiência em Monsaraz nas páginas de facebook “Reguengos com Vida” (www.facebook.com/ReguengosComVida) e Grupo de Facebook de Monsaraz (www.facebook.com/groups/monsaraz/). O trabalho é da autoria de Nuno Madeira, fundador do estúdio digital WIDE e do site 360cityguides, que é dedicado à divulgação do património cultural nacional através da tecnologia 360º e de novos media.”
Texto: Sapo
Fonte: Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz
Fonte: Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.05.2015
Um retrato desconhecido
Nas faces guarda os sulcos
marcados a memória das colheitas de uma vida. E uma vida não chega apenas para
contar das colheitas os dias em que o sol ainda não nascia em seus olhos de
amêndoa, vespertinos. Hoje deixam-se descair como a noite; um rasgo de luz
sobre o breu das colinas a silenciar os animais que comungam da aragem.
Soubéssemos nós da força dos
braços, de como ainda dele se padecem e se levantam, quais riachos, pequenos e
suaves ainda as agruras do fado descem. Sabe-se tão pouco desta terra
intensivamente arada, mãos feridas e saradas a cada nova madrugada, porque a
madrugada é o tempo de nascer e prontamente ser e não existe ser que nesta
Terra não viva.
Na nossa terra vive
até aquele que jaz – No eco das vozes que as paredes guardam, regozijando-se,
por conseguirem então cantar.
Cantam paredes e cantam vozes que contam mais do que há para
contar; sabem da história os remorsos e as felicidades de a história lhes ter
dado morada à beira-rio.
Que é este azul cristalino e
profundo que se estende, senão lágrimas recusando sal de quem da beira do
Alqueva fez o seu lugar? – Lugar mais que lugar, lugar de ficar! Pois que todos
que o visitam o querem consigo levar e não existe quem o leve tão
grandiosamente quanto aqueles que o sabem amar.
Amor. O amor denota-se nas mãos
engelhadas, cansadas de dar forma ao pó original, para lá do amor um grande e
doloroso amar. – nunca se cansa de contemplar a sua obra e a sua obra é já
doutros para (nunca) terminar.
Estendem-se
nas tardes tórridas na soalheira do que a natureza dá e entoam saudades de
menino – de pernas ágeis a saltar muros tão mais novos, de pés menos tortos a
calcorrear pedras menos desgastadas- que esquecem repentinamente quando é hora
de voltar a casa.
As
faces mais jovens ficam perdidas entre a imensidão do céu e a da terra -
procuram saber qual a magia e enquanto o perguntam já rostos desfigurados de
tempo esperam para responder que dos segredos do mundo pouco se sabe.
Não se
conhece Monsaraz sem se conhecer as suas gentes, pois as suas gentes são quem
faz Monsaraz. Não se lembram bem as ruas se se descura a menina de outro tempo
sentada à porta vendo os transeuntes passar. Não se podem descobrir as doçarias
sem o simpático jovem do café mais próximo, nem saber quão confortável é o
passeio sem o senhor que avança e escala as ruelas ainda com fôlego para um bom
dia bem frisado.
É por
isso que este retrato é desconhecido – porque não se limita a ser retratado;
não se permite embelezar mais do que aquilo que demonstra e qualquer descrição
peca pela falência das palavras. No entanto nunca mais se esquece depois de ser
apreciado.
Ficam-nos os olhos amendoados e as faces envelhecidas,
ficam-nos as mãos engelhadas e enegrecidas pelo sol e pela terra, fica-nos a
sensação das rochas a passar por baixo das palmas dos pés e o sonoro calmo e
paciente de uma terra alentejana.
E se nos acautelarmos em atenção, o retrato não é apenas
exterior. Vive connosco e depois vive através de nós.
Essa, jovens, seja talvez a principal magia.
Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas
domingo, 19 de abril de 2015
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