terça-feira, 21 de julho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Rui Dias José)_01.07.2015

Se os rios correm para o mar…
O Guadiana atrasa o passo em Alqueva
como se esperasse pelo Degebe

Nas calmarias do Verão, lento e sereno, o fio de água em que se convertia o Guadiana. Quase raso, ali defronte do Castelo de Juromenha… com a margem de Olivença ao alcance de uma passagem a vau.
Mesmo com pouca água, o rio valia a contemplação. Mais que não fosse, para esquecer as águas fétidas que corriam a montante, por baixo das pontes de Badajoz.
Já em Portugal, vinham em seu socorro outras - bem mais cristalinas - com os que os rios do lado de cá lhe aumentavam o caudal e devolviam ares de curso de água vivo. Que, em direcção à Foz, ia refrescando margens e recuperando o movimento de peixes.


E, se é certo que no Pulo do Lobo quase desaparecia no Verão, chegado a Mértola convidava para todos os mergulhos. Mais a baixo, voltava a ser navegável… com aquele lago que une Alcoutim a Sanlúcar e a descida magnífica até Vila Real de Santo António.


Podem dizer à vontade que o peixe de rio tem muitas espinhas, mas sempre que pude não o deixei escapar. E mal o suspeitava no prato, era de devorar… Cozido, grelhado, de caldeirada: Fosse como fosse! A Juromenha muitas vezes fui no encalço das carpas. E guardo memórias de convívio e sabor de caldeiradas lá para as bandas do Pomarão.
Dos braços de água que alimentam o grande rio do sul, foi sempre o Degebe que mais me atraiu para todas as contemplações e passeios. Até à Amieira, em terras de Portel. No aconchego das margens, nas sombras das suas árvores, no voo dos seus pássaros.


Depois, o Guadiana fez-se lago. Agigantou-se, cobriu montes, transbordou para onde (há uns anos!) ninguém suspeitaria. Perdeu a sua alma de rio, para ganhar a imensidão de horizontes líquidos de grande Mar Interior. E há até quem, nunca o tendo conhecido humilde, diligente e esforçado, só se reveja na imensidão de água que Alqueva veio represar. Como se ela tivesse nascido ali e não estivesse lá porque escorre margens abaixo em direcção à foz.
Da construção da barragem derivou uma impressionante mutação de paisagem. Que arrastou mudanças de cores, de sons e de cheiros. O Alentejo agora ribeirinho terá pouco a ver com o que era. Até em termos climáticos! Porque aquela imensa massa de água - com incidências de evaporação, de conservação e transferências de calor - não deixa por mãos alheias a sua força e o seu poder.
Pelo meio, ficou o sacrifício da Aldeia da Luz, com o que dela resta repousando no fundo das águas. E uma aldeia nova sem vida e nem alma. Um dia destes, até sem gente para usufruir das tais infraestruturas criadas para acolher os habitantes da velha aldeia. Estiolando aos poucos… E, apesar do que ali foi erguido para celebrar as memórias submersas, quase sem ninguém que a queira conhecer e visitar. Esquecida até do corrupio de gente que a demandou nos anos que antecederam o seu afogamento. Quase da mesma forma que, quem tinha obrigações nesta área, se esqueceu das promessas todas - solenemente comunicadas aos seus habitantes - em relação ao novo lugar para onde iriam ser transferidas as suas vidas.


Os castelos, que eram de defesa e vigilância às arremetidas dos de Castela, são agora varandas e torres de observação privilegiadas da paisagem que a água trouxe. Monsaraz sabe-o-bem, e as esplanadas sublinham. Mourão está a descobrir.
Resta agora saber das capacidades e da imaginação para aproveitar aquela água toda. Que era para ser para a agricultura, acordou para a energia eléctrica e agora toma ares de aposta turística.


É nestes contextos e cenários que vêm ao de cima os sinais de falta de diálogo entre gestores e usufrutuários das águas. Aliás, não discutindo pressupostos de defesa da saúde de pública, tornam-se notórias as diferenças de atitude entre o lado português e o espanhol do Grande Lago. Na banda de cá (e se calhar bem!) determinou-se que o usufruto das águas para refrescantes banhos teria de ficar adiado por uma janela temporal de segurança. Do lado espanhol investem em praias fluviais e não olham a essas coisas. Estranho, no mínimo! Ou eles já vinham habituados às poluídas águas do Guadiana à saída de Badajoz?
De qualquer modo, e como não haverá capacidade para policiar tantos quilómetros de margem, não se estranhe que (à surrelfa) também do lado de cá vão existindo mergulhos. Se numa qualquer actividade promocional de navegações no Alqueva até houve uma estrela das telenovelas que não se escusou a um banho para que os fotógrafos fizessem os bonecos…




E que deve ser difícil estar ali na beirinha de água, com esta caloraça do Verão, a resistir aos apelos e vontades… lá isso deve! Apesar de todas as determinações em contrário. Também… quando se fazem desportos  aquáticos como é? Já houve campeonatos de natação, de saltos para a água e outras coisas que tais…
Uma empresa da área do aproveitamento turístico das águas de Alqueve escreve mesmo no seu site: “As férias rimam bem com banho e mergulhos! Encontrará ao longo do percurso lugares propícios ao contacto com a água.”

Afinal como é? Mergulha-se? Não se mergulha? Se alguém souber alguma coisa de concrecto, informe. Que é para isso que os comentários da página também servem… :)

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Rui Dias José
01.07.2015 
Fotos: Café Portugal

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.06.2015


   Escolho o caminho de S. Pedro, o maior centro oleiro, para voltar a Monsaraz e às crónicas do Alto da Vila, mas sem nada previsto quedo-me pelo sopé onde estendido como preguiçoso lagarto ao sol, encontro o Telheiro e a minha velha escola que um benemérito da terra, de nome Caeiro, percebendo a importância do ensino, mandou construir em tempos idos.

 Edifício simples de arquitetura semelhante a muitos outros do estado novo. Pequeno átrio de entrada a dar acesso a uma única sala que reunia as quatro classes. Cá fora três arcos a sustentar um alpendre que servia de abrigo aos desacatos do tempo e um terreno murado que durante o recreio se transformava em torneios de pião, do berlinde, jogo do eixo ou do funcho. Todas as brincadeiras tinham um calendário preciso que era aceite sem contestação.

Na sala de aula o mobiliário rudimentar precisava de reforma. A secretária de pinho da professora, com duas gavetas onde se escondia uma palmatória que nunca vimos, mas que a D. Conceição, bondosa e paciente assegurava existir. O quadro negro, três filas de carteiras de dois lugares onde se anichavam separadamente as raparigas e os rapazes. Ao lado da lareira que poucas vezes servia, um armário que continha alguns livros, o boião da tinta permanente que haveria de encher os pequenos tinteiros  e um saco de leite em pó que em certas ocasiões era distribuído pela turma. Creio que no Natal e na Páscoa.

Ainda hoje recordo aquela bola que se formava, pegava ao céu da boca e ia derretendo lentamente, deixando um sabor que forrava as paredes do estômago com sumarenta quietude. Na parede dois mapas, o do continente e o das colónias, terras de costumes bárbaros onde o Manuel que era o sapateiro da aldeia já quase mestre, morreu com um tiro na barriga. Gastos do uso, os ditos, meio desfiados mais pareciam pergaminhos, e a ladear o quadro de ardósia as figuras imponentes do regime: O almirante de fato igual ao homem dos gelados a que não faltava o boné branco e o professor Salazar, muito sisudo, de olho na turma, não fosse haver alguma sublevação! No meio, um Cristo crucificado e tornado escuro pelo óxido do tempo.

 Estaciono o carro à sombra do posto da GNR e bem guardado, fico ali com o silêncio a pesar-me nos ombros, o dia a queimar-me em palavras … as recordações a empapar-me a memória enquanto o sino de Monsaraz bate as duas da tarde.

 A minha escola! A minha mas também a do Zé António, do Evaristo, do Chico, do Inácio, da Paula, da Catarina, da Suzete, da Benvinda e muitos outros que ali aprenderam, trocaram saberes, partilharam momentos e fizeram adormecer a manhã soletrando num som monocórdico a cantilena morna da tabuada. Ali aprendemos de cor e salteado os rios e afluentes, as serras e os mares e de dedo indicador espetado sobre o mapa, viajámos por comboios imaginários.

 Um dia a escola fechou, como tantas outras por esse país fora.

 Era fácil esgrimir argumentos falaciosos. Fazer outras contas que não as da aritmética simples que aprendemos. Outros jogos que não os do antigo pátio murado.


 Vieram senhores ilustres falar de progresso, de tecnologias, de rácios que ninguém percebia e o último miúdo vestido de bibe aos quadradinhos azuis, deixou rolar duas lágrimas, (como o tal menino do quadro das feiras que toda a gente pendurava na parede da sala), antes de entrar para o autocarro que o iria levar para outra escola mais distante para satisfazer os desejos economicistas dos senhores bem falantes que usam fato escuro e sorriso para todas as ocasiões.




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.06.2015
(fotografia da CMRM)

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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Monsaraz 360



“Monsaraz 360, visita interativa a uma das mais belas vilas de Portugal.

Monsaraz 360 (www.monsaraz360.pt) é o novo site interactivo, que permite conhecer a história e o património arquitetónico da vila medieval de Monsaraz. Este é um dos primeiros sites nacionais com uma visita interativa completa a uma localidade através da tecnologia 360º HDR e de novos media para computador e smartphones.

O site é bilingue, em português e inglês, tem galerias de imagens dos fotógrafos António Caeiro, João Fructuosa e David Ramalho, a história da vila, visita interativa 360 graus e o mapa de localização com informação das povoações mais próximas. As empresas locais poderão ter visitas interativas e assim ficarem associadas ao projeto.

Na visita 360 graus é possível navegar de forma interativa através dos pontos mais importantes de Monsaraz e aceder a informações sobre a sua história. O percurso começa na Ermida de S. Bento, localizada no exterior das muralhas da vila, dando a possibilidade de conhecer as paisagens com temperaturas mais elevadas do Alentejo e o verde que é acompanhado por um pôr-do-sol em mês primaveril.

No segundo ponto, a porta da vila, começa a descoberta das ruas históricas de uma das mais belas vilas de Portugal, percorrendo a Rua Direita, o largo de D. Nuno Alvares Pereira e a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa até ao castelo de Monsaraz, com vista panorâmica para a paisagem da região.

A visita interativa faz-se por ícones que identificam o local mais próximo, tal como se fosse um guia turístico interativo ilustrado, e através de pontos apresenta a história, alojamentos, restaurantes e lojas de artesanato e de produtos regionais. Poderá ser feita também através de um mapa com a tecnologia Google Maps para uma localização mais abrangente e miniaturas de acesso rápido ao ponto de interesse.

Foram realizadas versões da visita para computador, tablet e telemóvel (sistemas operativos Android e iOS). Através de dispositivos móveis é possível a quem visita a vila medieval ter acesso a informações úteis dos principais pontos de Monsaraz, ao Guia Turístico de Reguengos de Monsaraz (em formato pdf) e a eventos que vão acontecer na localidade. Os utilizadores podem ainda mostrar fotografias e contar a sua experiência em Monsaraz nas páginas de facebook “Reguengos com Vida” (www.facebook.com/ReguengosComVida) e Grupo de Facebook de Monsaraz (www.facebook.com/groups/monsaraz/). O trabalho é da autoria de Nuno Madeira, fundador do estúdio digital WIDE e do site 360cityguides, que é dedicado à divulgação do património cultural nacional através da tecnologia 360º e de novos media.”
Texto: Sapo
Fonte: Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.05.2015

Um retrato desconhecido

Nas faces guarda os sulcos marcados a memória das colheitas de uma vida. E uma vida não chega apenas para contar das colheitas os dias em que o sol ainda não nascia em seus olhos de amêndoa, vespertinos. Hoje deixam-se descair como a noite; um rasgo de luz sobre o breu das colinas a silenciar os animais que comungam da aragem.

Soubéssemos nós da força dos braços, de como ainda dele se padecem e se levantam, quais riachos, pequenos e suaves ainda as agruras do fado descem. Sabe-se tão pouco desta terra intensivamente arada, mãos feridas e saradas a cada nova madrugada, porque a madrugada é o tempo de nascer e prontamente ser e não existe ser que nesta Terra não viva.

Na nossa terra vive até aquele que jaz – No eco das vozes que as paredes guardam, regozijando-se, por conseguirem então cantar.

Cantam paredes e cantam vozes que contam mais do que há para contar; sabem da história os remorsos e as felicidades de a história lhes ter dado morada à beira-rio.

Que é este azul cristalino e profundo que se estende, senão lágrimas recusando sal de quem da beira do Alqueva fez o seu lugar? – Lugar mais que lugar, lugar de ficar! Pois que todos que o visitam o querem consigo levar e não existe quem o leve tão grandiosamente quanto aqueles que o sabem amar.

Amor. O amor denota-se nas mãos engelhadas, cansadas de dar forma ao pó original, para lá do amor um grande e doloroso amar. – nunca se cansa de contemplar a sua obra e a sua obra é já doutros para (nunca) terminar.
                
Estendem-se nas tardes tórridas na soalheira do que a natureza dá e entoam saudades de menino – de pernas ágeis a saltar muros tão mais novos, de pés menos tortos a calcorrear pedras menos desgastadas- que esquecem repentinamente quando é hora de voltar a casa.
               
  As faces mais jovens ficam perdidas entre a imensidão do céu e a da terra - procuram saber qual a magia e enquanto o perguntam já rostos desfigurados de tempo esperam para responder que dos segredos do mundo pouco se sabe.

                
             Não se conhece Monsaraz sem se conhecer as suas gentes, pois as suas gentes são quem faz Monsaraz. Não se lembram bem as ruas se se descura a menina de outro tempo sentada à porta vendo os transeuntes passar. Não se podem descobrir as doçarias sem o simpático jovem do café mais próximo, nem saber quão confortável é o passeio sem o senhor que avança e escala as ruelas ainda com fôlego para um bom dia bem frisado.
                
              É por isso que este retrato é desconhecido – porque não se limita a ser retratado; não se permite embelezar mais do que aquilo que demonstra e qualquer descrição peca pela falência das palavras. No entanto nunca mais se esquece depois de ser apreciado.

Ficam-nos os olhos amendoados e as faces envelhecidas, ficam-nos as mãos engelhadas e enegrecidas pelo sol e pela terra, fica-nos a sensação das rochas a passar por baixo das palmas dos pés e o sonoro calmo e paciente de uma terra alentejana.

E se nos acautelarmos em atenção, o retrato não é apenas exterior. Vive connosco e depois vive através de nós.


Essa, jovens, seja talvez a principal magia. 


Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.05.2015
(Fotografia de João Fructuosa)

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Associação Projecto Raia Alentejana

“… A Raia é a fronteira entre Portugal e Espanha, mas é muito mais, é História e histórias, é gente e costumes herdados de gerações, é de uma beleza natural extraordinária.
Longe das grandes cidades ficou um património intocado, vestígios de povoados pré-históricos e dos seus monumentos em pedra, fortificações e templos dos vários povos que conquistaram e defenderam estas terras a que chamaram suas, Celtas, Iberos, Romanos, Germânicos, Islâmicos, Castelhanos e agora Portugueses.
Da mistura de todos os que por aqui ficaram resulta uma identidade cultural única que é mantida pelo povo da Raia, nos seus costumes e tradições, no seu artesanato e gastronomia, na arquitectura e no falar, mas principalmente na sua relação com a terra.
Para as gentes da Raia a família, os vizinhos e a terra são o mais importante. Os ritmos são os do campo, das estações, do semear e do colher. Todos têm a sua horta e os seus animais, sempre dispostos a ajudar, a dar uma couve, umas laranjas ou um dedo de conversa… .



A Associação Projecto Raia Alentejana, surgiu em 2011, criada por Luis Lobato de Faria e Eunice Gomes.

O dinamismo de ambos, aliado ao gosto pela história, pela aventura e pelos passeios ao ar livre, leva-os a percorrer quilómetros e quilómetros de terras alentejanas à procura de “História e histórias”, através dos eventos que regularmente a APRA organiza.

Esta Associação, sem fins lucrativos, está agora apostada na divulgação do Portal “Visit Alqueva”, de modo a que consiga uma interacção maior entre as empresas locais, para que em conjunto possam explorar os pontos de interesse e rotas existentes na zona da Raia Alentejana. 

Ideia que fica bem patente nas palavras que Luis Lobato de Faria, um dos impulsionadores da APRA, deixou aqui ao Monsaraz em fotos:

"Sendo o Turismo o futuro da região temos que conquistar mercados, criar um produto dentro do Alentejo, as margens do Alqueva. Estamos a namorar os nossos vizinhos espanhóis, estamos a cortejar a comunidade do Norte da Europa aqui residente, temos que esquecer as fronteiras dos Concelhos e das políticas, trabalhar em equipa e em rede é essencial. A nossa região é única devido à sua fortíssima Identidade Cultural construída por gerações de diferentes povos e culturas. O nosso objectivo é precisamente preservar a Identidade Cultural, manter a Raia viva, a paisagem humanizada, temos que trazer gente para visitar e para cá viver."


Visitem e explorem a Raia:




quarta-feira, 1 de abril de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Rui Dias José)_01.04.2015


À vista de Alqueva,
Com lembranças do Guadiana…


De passagem ou destino procurado! Terras de Monsaraz, com recordações do Guadiana, que ali já foi rio… agora caudal que engrossa águas de Alqueva.
Mudou a paisagem, ganhou o Turismo. Mas a agricultura, anseio de Alentejo, tarda. Alguns desacreditam se irá chegar, para além dos vinhedos e olivais.



Do Além Tejo só tenho meia da ascendência. A outra veio bem do Norte… Mas o vício andarilho de trabalho e lazer trouxe-me com frequência a estas terras. Às vezes só etapa de viagem até Olivença, Villanueva del Fresno, Mourão, Amareleja, Barrancos, Encinasola… Outras, em busca de paisagens, vistas e vinhos de Monsaraz e Reguengos.
Do Olival da Pega tenho memórias dos anos 80, na companhia do então presidente de Câmara Vítor Martelo e do Arq. João Rosado Correia em deambulações no âmbito de um programa da Antena 1, o Passeio das Virtudes. Mas havia de voltar outras vezes quando fui responsável pelo Feira Franca, também do canal principal da rádio pública.
Foi assim que me habituei às vozes do Coral ou descobri “Monsaraz Museu Aberto”. E, já nesses tempos, o Corval era paragem obrigatória para desvendar a arte que se esconde nos dedos de um oleiro ou nos traços de cor com que mãos de mulher sabem bordar o barro.
Como era diversa a vista dos horizontes em redor das muralhas… Alqueva permanecia sonho adiado e ficava aquela imensa visão de campos, pontuados aqui ou ali por uma ou outra aldeia e mais umas quantas casas dispersas. O Castelo de Mourão, logo além… à distância de um olhar, levantado do casario à volta.
Eram fins de tarde fruição de cores e cheiros que não apetecia interromper até que o sol se fosse. Dos sons, quase só recordo os pássaros a quebrarem silêncios. Uma calma que dava para ouvir os próprios passos sobre antiga calçada de pedra e história.
Ir a Monsaraz era reencontrar serenidade, viajar no tempo, sonhar-lhe outras vidas naqueles arcos e ruelas. E parar aqui ao ali para um cumprimento feito aceno de cabeça e saudação de voz.
Obrigatória sempre a passagem pela “holandesa das mantas” e a procura de um qualquer espaço com gente para dois dedos de prosa.
Tenho para mim que, se o amanhecer podia ser de deslumbramento, o ocaso era esmagador com a multiplicação das sombras e o surgimento, ali ou mais além, das luminárias que pontuavam o horizonte e ensinavam a ocupação do território à volta.
A primeira vez que por lá pernoitei tive a felicidade de um espaço lindíssimo que me disseram pertencer à Universidade de Évora. Até hoje mantenho-me agradecido por tal hospitalidade e deferência. Ficaram gravadas as imagens das salas, das paredes, do pátio interior…
Haveria, anos depois, de experimentar o rigor monástico do Convento da Orada. Guardo a visão das madeiras de altar na recepção, os corredores transformados em galeria de arte, os quartos acolhedores, de paredes grossíssimas e janelas comedidas para vislumbrar a luz do Alentejo.

Não acompanhei a subida das águas

Como andei ocupado (distraído?) com outras incursões pelo país - fora dos grandes centros, de Valença à ilha do Corvo – não acompanhei a subida das águas da barragem nem a progressiva mutação da paisagem que ela consigo arrastou. Imagine-se a surpresa quando, subindo a Monsaraz, dei com aquele oceano de água em redor do velho burgo entre muralhas.
Agora com restaurantes e esplanada de ver paisagem em camarote. E um branco de Monsaraz, sorvido devagar, enquanto olhos e alma sugam vistas e horizontes. Tentando, das profundezas da memória, retirar imagens que ajudassem a identificar o que à minha frente surgia: tão diferente daquilo que era quando lá tinha estado de outras vezes.
Mas estranhei logo (ainda hoje estranho) a falta de rostos para saudar e cumprimentar. Como se o milagre da multiplicação da água tivesse o reverso da subtração da gente. Claro, ao fim-de-semana, um corrupio de linguarejares bárbaros, de cliques de máquinas fotográficas, de instrumentos dos mais diversos para fixar saudades em vídeo. Mas esses já não me dão a boas tardes nem ficam à espera que eu lhes responda…

Nostalgia? Não! Essa guardo-a toda para a memória dos homens que me ganharam para o sonho e para a premência de Alqueva. Lembro uma ida a Mourão, com um grupo de jornalistas meus convidados, e uma paragem obrigatória(!) no Alquevinha. Para comunhão de um sonho de Alentejo que aprendesse a arte e a tecnologia da água feitas fertilidade, riqueza, crescimento e fixação das suas gentes. Sem precisar do enxurro das casinhas de férias...
Por onde andarão agora esses sonhos de agricultura com que me seduziram e apaixonaram? Não é que não goste de flutuar águas de Alqueva. Bem pelo contrário! Mas fica-me um amargo sabor a pouco.

E os meus pensamentos quase regressam ao dia em que ia ficando atolado no meio do Guadiana, de Juromenha para Vila Real, já nas bandas de Olivença. Eu sabia perfeitamente que a Renault 4 não tinha virtudes de navegação, mas o caudal daquele Verão estava tão baixo que me deu para arriscar. E cheguei ao lado de lá! A tempo de descobrir que o lugarejo vivia de uma imensa exploração hortofrutícola. Semelhante a uma que havia do lado português. Só que - a das nossas bandas, ao tempo - era de uns holandeses… e a defronte era mesmo de espanhóis.

Fico por aqui. Já estou a reincidir nas nostalgias da água!

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Rui Dias José
01.04.2015 
Fotos: Antunes Amor 

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.03.2015


Cá estou eu no ponto mais alto do castelo, cronista de trapézio, equilibrista de paisagens, ágil acrobata aos saltos pela história.

 Fixo o olhar no horizonte que se dissolve entre o castanho da terra e o infinito azulado do céu. Respiro o silêncio, o aroma das estevas, o sabor da terra neste poema de pedra que dá pelo nome de Monsaraz.

 Da torre de menagem, lugar sublime, altaneiro, avisto ao longe, lá para os lados do Outeiro, um menir que se ergue erecto a (emprenhar o infinito). No nascente, antigos baldios da machoa, surge Azovel e seus guerreiros Almorávidas montados em corcéis árabes prontos a tomar o burgo. Nos jardins passeia-se Alandra formosa e sedutora. Mais à frente e eis D. Nuno, ajoelhado em oração, no sítio onde se haveria de erguer alguns séculos depois o convento da Orada com seus Agostinhos descalços. Cerro os olhos, abro os olhos e à minha frente surge o juiz de fora, autoritário, indicando o monte da forca ao condenado por heresias. Se escutar com mais atenção quase consigo ouvir as vozes de mando dos antigos alcaides. D. Tomaz Gomes Martins, D. João de Aboim, D. Martins Botelho e outros cujos passos ressoam na mesma calçada romana, disposta em cutelo, onde agora passeamos.

 Fecho os olhos. Outro salto mágico. O Guadiana apertado com o garrote de Alqueva inchou, inchou espreguiçou-se e descobriu novas margens. Deste parapeito vislumbra-se em toda a sua plenitude a imensidão de um mar tranquilo, e onde antes era terra e suor, palco de labores e lutas antigas com jornadas de sol a sol, perspectiva-se neste momento, outro tempo, com os antigos manageiros e feitores transformados em marujos e arrais e as velhas eiras onde se debulhava o trigo, em apetecíveis marinas onde encalham os sonhos do futuro.

Pois é, tudo se transforma. A água engoliu de vez a fábrica das celuloses e o autocarro azul carregado de operários fabris com sonhos ao fim do mês, já não desce a encosta.
A aldeia da Luz afundou-se e só as recordações teimam em vir ao de cima entristecendo quem lá viveu. Os eternos problemas do Alentejo ainda persistem. A desertificação, o abandono, as gritantes assimetrias sociais, o desemprego a atar as mãos de quem quer e merece trabalhar e muitas vezes é convidado ou obrigado a encher o taleigo de desespero para partir de mal andar rumo às Suíças ou às Américas.





 Para lá destas palavra, o sol ardente continuará a nascer e a esconder-se no poente das nossas vidas, sempre com o Alentejo escrito na cal, sepultado na alma, repartido nas açordas, festejado no cante que é só nosso e da humanidade. 

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.03.2015 

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015



" Reguengos de Monsaraz vai ser a Cidade Europeia do Vinho 2015, sucedendo a Jerez de La Frontera (Espanha), escolhida em 2014.
A decisão é da RECEVIN - Rede Europeia das Cidades do Vinho, que de acordo com o calendário oficial do evento devia escolher, este ano, uma cidade portuguesa, tendo optado pela candidatura de Monsaraz, que apresentou como parceiros os municípios de Évora e de Elvas.
Havia mais duas propostas portuguesas ao título. Cantanhede, em parceria com as câmaras de Mealhada, Águeda, Anadia e Oliveira do Bairro, candidatou a região da Bairrada. Já Monção e Melgaço puseram a concurso a região dos vinhos verdes Alvarinho.
A favor da candidatura alentejana terá pesado a realização de iniciativas como a Gala anual da Cidade Europeia do Vinho, o Congresso Internacional da Vinha e do Vinho, o Congresso Internacional de Polifonias, o Encontro Europeu de Confrarias Enogastronómicas, o Mercado Esporão Slow Food Alentejo e o estágio para jovens agricultores europeus com seminários dirigidos por especialistas e visitas a produtores de vinho da região.
No âmbito da Cidade Europeia do Vinho 2015 vão, ainda, ser organizadas observações astronómicas com provas de vinhos, colheita de uvas para a criação de um vinho comemorativo, provas temáticas e jantares gastronómicos.
Numa reação à decisão da RECEVIN, a autarquia, presidida por José Calixto, considera a distinção "muito importante para a promoção dos vinhos de Reguengos de Monsaraz e de toda a região, mas também para a divulgação turística do Alentejo".



Info.: http://expresso.sapo.pt/reguengos-de-monsaraz-vai-ser-a-cidade-europeia-do-vinho-2015=f899702#ixzz3Q27a6zeW

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)

A memória da criança

Era uma vez, faz muito, muito tempo, um castelo encantando, perdido no meio de altas verduras e céus coloridos onde viviam todas as espécies de criaturas mágicas que a uns olhos desprovidos de imaginação eram apenas histórias.

Era assim que a criança me começava por contar aquilo que ela jurava não ser mais uma história mas um lugar imutável no tempo. Ainda hoje me sento a ouvir a criança porque há dias em que a sua falta começa a pesar.
A criança tem, no entanto, razão.


Essa vila erguida no alto é a minha primeira recordação do lugar místico em que procurava viver. A sua descoberta, ao longo de todas as visitas, pareceu-me sempre um retorno a uma casa maior onde para além de largas pedras anciãs eu via a magia que faltava no quotidiano empobrecido de beleza pelas altas casas brancas e pelo alcatrão negro adjacente.


Sempre que os meus pés, ainda pequenos, ultrapassavam o arco de entrada era como se pelo contrário uma larga travessia tivesse tido lugar. Uma travessia que havia atravessado as brumas trazidas pelos ventos do rio que beijava os pés da Deusa.
E a Deusa respirava naquelas ruas, suspirava naquelas ruas – nas suas encruzilhadas e compridas inclinações – sempre ao ritmo lento das danças naturais pois que a música provinha apenas da vida sustida entre as paredes e o teto azulado do vilarejo.
Aos saltinhos curtos e corridas animadas encontrava sempre um esconderijo onde me perder. Uma gruta colorida apetrechada de água escura e misteriosa escondia os inúmeros monstros que guardavam as passagens para outros mundos – mundos esses a que ninguém devia ir, pois que o mundo onde se encontravam era já poderoso o suficiente. Uma arena redonda, ou um quanto oval, quem sabe o círculo onde moravam as fadas que espalhavam no infinito avistado das grandes torres os amarelos e laranjas que em ondas e remoinhos se misturavam com o azul profundo que se despedia de mais um dia. Um poço no centro da praça principal que concedia desejos e cuja água conferia milagres, que era tão fundo que tocava os confins do mundo.

Lembras-te? – pergunta-me a criança; eu sento-me e no meio da azáfama lembro-me devagar para poder saborear cada momento da minha terra mágica.
Cada despedida sabia-me no peito como o regresso ao mundo paralelo sem graça que eu tinha de suportar para me ser concedida a graça de voltar a atravessar as brumas. – Tudo era uma demanda.

Ao chegar a casa entretinha-me ainda a imaginar quantas danças teriam lugar pela noite. Quantos raios de lua seriam necessários para que aqueles que ficavam lá se sentissem perto o suficiente da Deusa. Quantas as luzes e os cânticos e os banquetes se fariam nas frestas das pedras que formavam aqueles lugar e convencia-me, sorrindo, que eram muitos e que ninguém os sabia porque ninguém detinha o que era preciso no olhar.
O que era preciso era a memória da criança que nunca se esqueceu ou separou realmente daquele lugar. – guarda a sua Avalon como Artur guardaria a sua Excalibur e isso parece ser o suficiente.


Hoje, ao calcorrear as esquinas da vila, sei que ela cresceu no mesmo passo que a criança. – A vila parece mais uma senhora imponente: a Deusa da criança materializada ao expoente da beleza nos seus quatro elementos naturais. Uma mulher de cabelos longos e roupas escuras e duras cujos pés dividem o pequeno mar que em frente a si se estende. Uma feiticeira que sopra ventos ferozes e me levanta os cabelos ou cuja mão dourada acaricia os seus caminhos e me doira a pele.
Acima de tudo, uma mulher silenciosa que me deixa espaço para ser a criança novamente. Apetrechada da sua memória e da sua visão.




A memória da criança vive enquanto a sua Avalon viver – e aí o carinho pela vila escondida lá no alto. Isto não foi a criança que me disse. Foi cada memória de mim mesma encerrada em Monsaraz, como amiga e guardiã que cresceu e me deixou crescer.

A criança, se pudesse falar, diria apenas que ao pôr-do-sol, e se vires com atenção, as fadas saem para dançar e a Deusa, deliciada, as aplaude prosperando em alegria. 

Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.02.2015

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