terça-feira, 1 de setembro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.09.2015


É bom ficar assim entre quatro versos como num aprisco que rodeia as ovelhas, e submerso no poema espantar as palavras, enquanto um rafeiro ladra às rimas. Confesso-me pastor de sílabas a vigiar os silêncios e os lobos da noite. Mas hoje estou virado para um texto que faça as vezes de uma crónica, ou coisa que se pareça.

 Do alto da minha imaginação, não tão alta como a torre de menagem, avista-se o reino e é quase certo a julgar pelos cartazes que anunciam o espectáculo, que por esta hora, o circo já terá invadido a cidade. Não há bailarico nem feira que não tenha as ilustres visitas!




 Os mágicos e ilusionistas à frente, logo seguidos dos malabaristas, dos trapezistas, dos futuros ministeriáveis de sorriso aberto e gesto afirmativo em jeito de concordância e na cauda do cortejo os bobos. Um número com um animal feroz faria aumentar a assistência mas desta vez… pode não ser bem assim. Há quem prefira dois papagaios, agora um, depois outro, para repetir a mesma coisa: -Dá cá o pé! – Dá cá o pé! Ou o voto?

Na hora do noticiário está garantido o tal directo para largar duas ou três larachas e o povo assiste já habituado, ao cíclico renascer do Sebastianismo e à alternada festa do poder, entre discursos balofos e anunciados debates. É a festa que todos pagamos!
Sem qualquer pretensão literária deixo-vos com um diálogo Improvável entre dois pêpês. O leitor que escolha. Deixo algumas possibilidades: Pôncio Pilatos, Paulo Portas, Público Privado, Pedro Passos, Paio Pires, Papa Pilas, Pronto Pagamento…


- Sabes o que me parece? Muitos milhões! Apetecia-te gastar? Fosses de feira em feira ou fizesses uma perninha com os chineses que desde a EDP não nos largam a porta. Muitos milhões. Aliás demasiado para um investimento que não se vê.

- Mais milhão menos milhão… e essa do não se vê, não é bem assim. Não se vê mas avista-se. Quando vem ao de cima, claro que se avista!
- Olha eu é que não lhe meti a vista em cima. Já aqueles Alemães que engavetaram, talvez não digam o mesmo.

- Ah sim…engavetaram alguém? Só tenho seguido aquele episódio do Zé, mas há gente capaz de tudo. A Ângela? Quem diria… engavetou mesmo?

- O que te quero dizer é que com tantos milhões bem se podia comprar uma dúzia de barcarolas para vigiar a costa. Já imaginaste? Os contribuintes a banhos, deitados ao sol que nem lagartixas, eles a espalharem os cremes nas costas e de repente a acenarem ao investimento. Elas em gritinhos histéricos: Olha ali Pedro, olha lá ao longe… está a vê-lo? E num aceno gracioso dando vivas. Isso sim tinha sido uma excelente ideia e como eu diria, um investimento à vista.

- Que engraçadinho! Toda a gente a acenar e a ver passar os navios… que vigiam a costa! Ora aí tens tu muito que fazer. Deixa a costa em paz e preocupa-te mas é com o Costa.

- Estou absolutamente, confiante e seguro!

- Seguro? Olha o outro também estava e zás, puxaram-lhe o tapete. És muito novato. O que é preciso é ter sentido de estado, ouviste? Às vezes até me fazes lembrar aquele coelho de orelhas retorcidas da Alice no país das maravilhas. Sentido de estado e jogo de antecipação.

- Mas repara nos números, esses milhões davam para muita coisa. E tu o que fizeste? Compras-me aqueles supositórios sem graça, que passam o tempo debaixo de água e gastam uma pipa de massa cada vez que são revistos. Estou mesmo a ver quem esfrega as mãos de contente!

- Lá vem ao de cima a tua falta de antecipação, e pelo contrário, o meu sentido de estado, a minha visão de futuro que me diz que o que fiz está certo e para que saibas, além de irrevogável sou como o outro. Também não tenho dúvidas. Isto, mais dia, menos dia, vai tudo ao fundo. Então não te parece uma compra acertada. Parece ou não?


Um submarino para mim outro submarino para ti… e a vida sorri!




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.09.2015 
(fotos internet)

sábado, 1 de agosto de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.08.2015

Exaltação Alentejana

Elevam-se hoje os campos àqueles que com os olhos postos neles os amam já pela admiração. Elevam-se, os pequenos campos, e podiam dizer-se outrora morada do Deus que tudo de belo cria, tão altos, beijando suavemente o azulado suave de um céu aberto que não sabe mais que dar boas-vindas.

Abertos encontram-se também os braços beijados pelo mesmo dourado que pinta planícies, como se de ouro, pelo dourado que queima docemente qualquer um que ouse calcorrear calçadas e veredas estreitas, velhas mas sábias, com histórias para contar que nem eu mesma conheço.

Tudo o que aqui se faz, faz-se com amor e orgulho embrulhado em peitos que alentavam as mãos feridas que ergueram colinas e casas – casas e lares, que não são apenas de quem os construiu mas de todos aqueles que, hoje, melhor os  decoram. Com palavras gentis e sorrisos, olhares perdidos para lá do espelho de água, perscrutando a beleza da serenidade da natureza alentejana que perante si se ergue, senhora mãe e senhora filha – em cada momento fazendo-se fénix.

Eleve-se hoje o refúgio da parafernália quotidiana, da contemporaneidade amestrada e manipulada e nele se fechem os olhos para que o vento corra, criança, de mansinho pela pele. Nele se fechem os olhos, principalmente, para escutar o silêncio das vozes, roucas e vibrantes de quem canta da Humanidade o pequeno oásis que é Monsaraz. – Quando a ele se chega nunca mais dele se parte.

Mas que seria a glorificação de pai, sem seus filhos? Que seria falar de Monsaraz sem falar de todas as pequenas aldeias que grande discurso nos deixam na memória – em histórias pinceladas, cristalizadas na simplicidade do barro que é o pó que os nosso pés pisam e que nasce da magia ancestral de quem sabe amar a sua tradição; em rochas que encerram em si o poder da crença ainda menina resultando dela um sorriso aberto quando a pedrinha se equilibra na Rocha dos Namorados; na cidade de onde provém o elixir que próprio Baco teria cobiçado. Que seria, ainda, não falar deste cantinho que hoje se estende por fotografias e melodias e esplanadas e varandas que nos deixam sempre a mesma sensação: é tão grande o mundo, mas tão maior o Alentejo. Mas tão maior a distância entre o Alqueva e o céu. Mas tão melhor a proximidade da vida á terra, onde a vida e a terra se misturam numa só. Como sempre o foram.

Cante-se, em uníssono, as belezas destas muralhas ao sol, o seu reflexo naqueles que as carregam às costas como suas, por suas. Cante-se a vida. Serena, apaziguadora. Cante-se o canto de anos e anos de madrugadas frescas e tardes solarengas, molengonas, como por cá dizemos, porque por cá dizemos. Cante-se isso tudo com o canto das aves, e o sussurro das águas, e as gargalhadas com o forte sotaque característicos e cante-se a nossa terra. Cante-se a nossa origem. Cante-se o nosso orgulho, porque ele pode e ele deve e ele vai.

Sem importar gerações, géneros, crenças. Cante-se o simples esplendor da natureza em comunhão com a humanidade onde a natureza e a humanidade se seguram e se apoiam mutuamente.

Elevo hoje o cantinho á beira Alqueva plantado, cantinho lato no meu coração. Cantinho lato na minha canção. Cantinho, que será, sempre lato na minha condição.


Quando a nós ele  chega, nunca mais de nós ele parte. 

Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.08.2015
(Fotografia de António Caeiro)



terça-feira, 21 de julho de 2015