domingo, 1 de fevereiro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)

A memória da criança

Era uma vez, faz muito, muito tempo, um castelo encantando, perdido no meio de altas verduras e céus coloridos onde viviam todas as espécies de criaturas mágicas que a uns olhos desprovidos de imaginação eram apenas histórias.

Era assim que a criança me começava por contar aquilo que ela jurava não ser mais uma história mas um lugar imutável no tempo. Ainda hoje me sento a ouvir a criança porque há dias em que a sua falta começa a pesar.
A criança tem, no entanto, razão.


Essa vila erguida no alto é a minha primeira recordação do lugar místico em que procurava viver. A sua descoberta, ao longo de todas as visitas, pareceu-me sempre um retorno a uma casa maior onde para além de largas pedras anciãs eu via a magia que faltava no quotidiano empobrecido de beleza pelas altas casas brancas e pelo alcatrão negro adjacente.


Sempre que os meus pés, ainda pequenos, ultrapassavam o arco de entrada era como se pelo contrário uma larga travessia tivesse tido lugar. Uma travessia que havia atravessado as brumas trazidas pelos ventos do rio que beijava os pés da Deusa.
E a Deusa respirava naquelas ruas, suspirava naquelas ruas – nas suas encruzilhadas e compridas inclinações – sempre ao ritmo lento das danças naturais pois que a música provinha apenas da vida sustida entre as paredes e o teto azulado do vilarejo.
Aos saltinhos curtos e corridas animadas encontrava sempre um esconderijo onde me perder. Uma gruta colorida apetrechada de água escura e misteriosa escondia os inúmeros monstros que guardavam as passagens para outros mundos – mundos esses a que ninguém devia ir, pois que o mundo onde se encontravam era já poderoso o suficiente. Uma arena redonda, ou um quanto oval, quem sabe o círculo onde moravam as fadas que espalhavam no infinito avistado das grandes torres os amarelos e laranjas que em ondas e remoinhos se misturavam com o azul profundo que se despedia de mais um dia. Um poço no centro da praça principal que concedia desejos e cuja água conferia milagres, que era tão fundo que tocava os confins do mundo.

Lembras-te? – pergunta-me a criança; eu sento-me e no meio da azáfama lembro-me devagar para poder saborear cada momento da minha terra mágica.
Cada despedida sabia-me no peito como o regresso ao mundo paralelo sem graça que eu tinha de suportar para me ser concedida a graça de voltar a atravessar as brumas. – Tudo era uma demanda.

Ao chegar a casa entretinha-me ainda a imaginar quantas danças teriam lugar pela noite. Quantos raios de lua seriam necessários para que aqueles que ficavam lá se sentissem perto o suficiente da Deusa. Quantas as luzes e os cânticos e os banquetes se fariam nas frestas das pedras que formavam aqueles lugar e convencia-me, sorrindo, que eram muitos e que ninguém os sabia porque ninguém detinha o que era preciso no olhar.
O que era preciso era a memória da criança que nunca se esqueceu ou separou realmente daquele lugar. – guarda a sua Avalon como Artur guardaria a sua Excalibur e isso parece ser o suficiente.


Hoje, ao calcorrear as esquinas da vila, sei que ela cresceu no mesmo passo que a criança. – A vila parece mais uma senhora imponente: a Deusa da criança materializada ao expoente da beleza nos seus quatro elementos naturais. Uma mulher de cabelos longos e roupas escuras e duras cujos pés dividem o pequeno mar que em frente a si se estende. Uma feiticeira que sopra ventos ferozes e me levanta os cabelos ou cuja mão dourada acaricia os seus caminhos e me doira a pele.
Acima de tudo, uma mulher silenciosa que me deixa espaço para ser a criança novamente. Apetrechada da sua memória e da sua visão.




A memória da criança vive enquanto a sua Avalon viver – e aí o carinho pela vila escondida lá no alto. Isto não foi a criança que me disse. Foi cada memória de mim mesma encerrada em Monsaraz, como amiga e guardiã que cresceu e me deixou crescer.

A criança, se pudesse falar, diria apenas que ao pôr-do-sol, e se vires com atenção, as fadas saem para dançar e a Deusa, deliciada, as aplaude prosperando em alegria. 

Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.02.2015

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