quinta-feira, 17 de maio de 2018

Crónicas do Alto da Vila | por Manuel Manços Assunção Pedro | 16.05.2018


      Ter a sorte em ser oriundo duma aldeia, onde as suas chaminés despontam, como pináculos na aridez da planície alentejana; defender com garra as suas origens; admitir com satisfação que o tratem por “chaparro” e afirmar, sem embargos de voz, que sente orgulho em pertencer ao clã alentejano, entre outras características, não será para todos, porque contém muita responsabilidade agregada e tem, também, muito que se lhe diga... no entanto, quem assim proceder, sujeita-se a bastos comentários de índole, nem sempre agradáveis, de escutar e algumas vezes, engendrados e ditos por “irmãos”, também eles com origem na “Pátria Alentejana”.

      O tipo de comentários que refiro, acredito que, somente, terão origem na ignorância, má fé e na “dor de corno”, ou seja, na inveja, porque gente do referido calibre, nasce e espalha-se como a “grama”, residindo em todas as raças e em todas as galáxias. Alguns, somente, porque vivem loucos, abraçados a um “canudo”, sabe Deus como o teriam adquirido, julgam-se os mais bafejados pela sabedoria e pela sorte, mas dada a sua auto-confiança, em demasia, costumam ser os que mais fracassam. Em muitos aspectos, também lhes poderei chamar os “empata...”, que não fazem, não querem fazer e têm raiva que os outros façam...

       O Alentejo sempre sobressaiu por ser uma região de características aprasíveis, muito próprias, no entanto, contrariando o que referi, lá deixei a minha aldeia, em pleno “campo aberto”, e os conhecimentos que eu trouxe, eram inferiores (em quantidade e em qualidade) aos que hoje possuo, mas com sacrifício adquiri. Não tinha ainda dezoito anos, decidi partir, como tantos outros vieram, mas sou sincero, estranhei muito por ser forçado a ter de deixar os meus pais e o ambiente saudavel, desafogado e bom que me permitia mover livremente, e o Alentejo proporcionava, para me ir encafuar entre as quatro paredes duma Repartição Publica, movido por iluzões, sonhos e ambições de juventude, que me obrigaram a enveredar pelo referido caminho. Os “sonhos bons”, que me povoavam a memória, de dia e de noite, quase  se transformaram em tragédia e tornou-se demasiado penoso e evidente, o facto de eu ter de abandonar a minha aldeia, que para além de casas térreas, de um só piso, encavalitadas nas ruas estreitas pouco mais tinha para me dar, no entanto “conservava” a taberna do meu avô, que foi uma escola para mim, onde eu me “deliciava” servindo vinho, às rodadas, ao balcão e cantava as “nossas modas” com os adultos. Reguengos e as suas gentes também vieram comigo, na bagagem da minha lembrança, como um postal multicolor de amizade.

     Nada me fazia parar e eu tinha consciência que iria dar um passo muito arriscado. Assim, de noite, a ver brilhar as estrelas por entre as telhas, aconselhava-me com a minha figueira, que ao lado tapava metade do telhado da despensa onde eu dormia e dizia: “Vai ao teu destino e vai cantar que é o que te levará a fazer as maiores maluquices!”.

        E o dia aprasado chegou esbaforido e eu parti no comboío, que passava no apeadeiro da minha terra, onde familiares meus se despediram de mim, de lágrima no olho, enquanto eu me queria mostrar alegre, mas por dentro estava mais negro que o chapeu que o meu pai usava na cabeça. Creio que o êxodo, não foi tão penoso e sufocante, para os hebreus.

      Passados que são estes anos, concluo que, de certa forma, valeu a pena porque, lamentavelmente, se tivesse ficado “retido” na minha Terra, não desenvolveria funções, nem tarefas, que desempenho, actualmente, na “grande cidade”, mas foi somente à custa de muito sofrimento psicológico, repito, e de muita saudade, do “bom” que deixei no Alentejo, de que eram, ainda, testemunhas bocados da minha infânca, que haviam sobrado.

      Levantar de madrugada, correr para o emprego, por entre um ror de gente e caras estranhas, e à noite enveredar pelo caminho inverso, e depois jantar e a seguir ir a pé e a correr para um Externato, onde “desenvolvia capacidades intelectuais, através dos livros que ia adquirindo, para o efeito”, e mais uma vez tiveram de ser os meus pais a ajudar,  porque, o vencimento de funcionário público, não chegava para comprar e “dar milho às gaivotas, no Tejo” e não havia ajudas para minguém, mas devia ter havido, porque manter um emprego de dia e ter de ir estudar à noite, tornou-se sempre  dispendioso, em todos os aspectos, físicos, psicológicos e monetários.

     Entre os muitos entraves com que deparei, foi a nível linguístico, mas comecei a verificar que o vocabulário e a forma de me exprimir chamavam a atenção de cidadãos que decidiam depois entabular conversas sobre o Alentejo e suas características e enquanto falavamos e eu “me distraía” do local onde me encontrava faziam-me sentir na minha própria Terra e com a minha gente, a pontos de alguém me dizer, em uma ocasião, que eu teria de elaborar um dicionário de “Alentejanez”, para que pudessemos dialogar, mas não chegou a ser preciso.

      À medida que o tempo passava, e eu me ia adaptando ao novo ambiente, fazendo novas amizades, algumas ganharam a minha confiança e numa forma carinhosa, em vez do meu próprio nome “desataram” a tratar-me por “chaparro”, que em vez de aborrecer, fazia crescer o meu orgulho de alentejano e recordar a árvore preciosa que sempre será um icone no grande orgulho alentejano, porque dava e continua a dar sombra a quem tanto precisa de se abrigar, quer de verão, quer no Inverno. Para além das “boletas” que eram muitas vezes a base da alimentação dos suinos, mas que eu também gostava de “trincar”, cruas ou assadas. Muitas eram e continuam a ser ainda melhores e mais saborosas que as castanhas.

      Claro que, na cidade,  também havia aqueles que se esforçavam para aborrecerem  o alentejano, como falavam mal dos alentejanos, em geral, enquanto engendravam anedotas, na maioria das vezes sem graça, e contadas para nos “rebaixar”, mas normalmente, quem ficava a perder eram sempre eles porque eu, conhecedor dos costumes das suas origens também os  “atacava”.

Como era bom observador e tive experiência nos campos do Alentejo, ainda gosto de escrever sobre o que constatei e passei na minha preciosa juventude, na “Pátria alentejana” e sobre as suas gentes. E, claro, para ser sincero e escrever as verdades continuo a descrever o que vi e vivi, havendo pessoas que lêem e relevam o que escrevo porque sem embargos continuo a relevar e a enaltecer factos e ocorrências que “outros esconderiam”, por vergonha, porque nascer e ser criado na pobreza, que o campo sempre ofereceu nunca foi facil, com o bem precioso que é a liberdade. Infelizmente, pressinto que, para alguns, falarem sobre as lides do campo sentem que será o mesmo que se rebaixarem perante a pobreza em que um dia terão vivido, como aquele alentejano que veio à cidade e quando regressou à sua terra já não sabia o que era um ancinho. Mas quando o pisou e levou com o cabo na cabeça soube dizer áh, incinho dum cabrão, que mos ias partindo...






CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
16.05.2018 - a partir de texto de 2017
(fotografia: António Caeiro)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Crónicas do Alto da Vila | por Luís Filipe Marcão | 04.04.2018


Percebo hoje a dificuldade de escrever sobre um tema quando, por falta do mesmo, a criatividade fica encalhada e perdida diante do deserto da folha de papel ou frente ao monitor. Lembro-me dos tempos do secundário em que encolhido e expectante aguardava o anúncio da redacção.

Conjecturava hipóteses. Talvez sobre as estações do ano e as suas incidências nos estados de alma? Os últimos concertos dos Beatles? Quem sabe, um tema de história local ou os sonhos e projectos de cada um daqueles futuros engenheiros, arquitectos, cientistas? E porque não, uma carta de amor? Daquelas que o Fernando Pessoa achava ridículas? Até já tinha mentalmente alinhado algumas frases envoltas de romantismo, inspiradas na pequena, de olhos verdes e cabelos loiros, que se sentava dois lugares à frente, do lado oposto.

Qualquer tema nos serviria para, em vinte ou trinta linhas, nos sujeitarmos aos seis valores da composição, mas naquela manhã de Abril com inusitada e atrevida surpresa, a professora anunciou, olhando a turma por cima dos óculos:

- Livre! Tema livre! Percebem?

Sim Sô Tora, claro que sim. Percebemos.

Mas… aquela liberdade, atirada assim de chofre para o meio da aula, em vez de ajudar, atrapalhava. Talvez fosse por não estarmos habituados a ela. As palavras não saíam. Colavam-se teimosas ao bico da esferográfica, ficavam suspensas no pensamento, num exercício de equilibrista em corda bamba, e na maioria das vezes estatelavam-se impotentes e sem significado, no patamar da nossa aflição.

Passado a inquietação dos primeiros instantes repleto de falhadas tentativas, as ideias lá iam descobrindo caminho, formando frases até ao último suspiro de alívio, rematado com um ponto final conclusivo. Uf! Era obra. Quase vinte linhas de animada retórica, nem o conselheiro Acácio!

Com o tempo descobrimos como era tão bom viver e saborear a liberdade.

Um dia, acasos do destino, encontrei um antigo companheiro do liceu. Rapaz esperto, ministeriável, de modos polidos, com duas licenciaturas em tonterias e uma pós- graduação em dislates que se alongou num discurso bolorento, onde misturou as esperanças de D. Sebastião com as memórias do Marquês e as saudades mal disfarçadas a respeito de um velho professor que caiu da cadeira. Poderia contrariar aquele incêndio de palavras com as lágrimas das mães e viúvas, dos soldadinhos que nunca voltaram. Com a fome e as praças de jorna cheias de uma gente madura que resistiu e lutou. Também me lembrei do Tarrafal, das mordaças e algemas e do lápis azul do censor, enquanto ele esgrimia argumentos e golpeava num entusiasmo que lhe fazia corar o rosto, “os motins” que não ousava compreender.

E de repente veio-me à lembrança uma frase muito simples que ouvi à colega Mercedes e segredei-lhe:

“ Abril já nos trouxe tantas coisas boas! “

Foi o suficiente para me voltar as costas e afastar-se em passo apressado, virando à direita. Eu segui, em sentido contrário, contra o vento agitado e uma chuva miúda que ensopava os ossos e me fazia recordar outra quinta-feira, já muito distante.

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA

04.04.2018 
(foto: António Caeiro)


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Crónicas do Alto da Vila | por Manuel Manços Assunção Pedro | 01.02.2018

Manuel Manços Assunção Pedro
A LENDA DA COBRA MOIRA

Minha terra é linda! A sua beleza de pequena urbe infiltra-se na gente, a cada pedra que pisamos, a cada esquina que dobramos, das ruas de casas térreas de adobe.


O seu rosto mítico, transpira odores dum primaveril Olimpo, com características, remontando aos ancestrais tempos da moirama. Sob um coro de cigarras, cruzam-se os cheiros das rosas e dos goivos, com os da hortelã, da salsa e dos coentros, numa agradável e estonteante embriaguez de ervas molhadas, em dia de grande calma. Subindo ao "miradouro" do Monte Arriba, pequena elevação situada do lado do nascente, vê-se aproximar o sol, vindo de muito longe, trazendo lembranças de Espanha e das gentes do Baldio. E em frente, no lado oposto, cortando a linha do horizonte, bem rentinha ao céu, na planura distante e multifacetada, a Serra de Portel insinua-se majestosa no seu azul neblina. Logo abaixo, ilusoriamente, querendo roçar--lhe o sopé despontam Montes, semeados no verde amarelado das searas, ou no térreo castanho dos alqueives, na sua cândida brancura encimada pelas coroas grenás dos telhados. Entre tantos, ele é o Pegeiro, parecendo uma caixa de fósforos, e mais perto, numa colina, rodeada de verdes das culturas do verão, o do Outeiro, fazendo destacar as suas chaminés seculares, afuniladas, tipo caixote, e ainda mais perto, num baixio, o da Abegoaria que, orgulhoso das suas origens por ter sido pão de tanta gente, em tempos de grande pobreza, enriquece-nos o olhar, ofertando-nos o alto cipreste, que se avista de muito longe abraçando a planície, nos seus inúmeros braços verdes, além do casario apalaçado e dos contornos da fachada da sua capela, semi-escondida por trepadeiras em flor. Este local sagrado é local de culto, de novenas e de grande fé, onde a Senhora da Piedade, na sua angústia de mãe, acomoda no regaço, o seu Bendito Filho agonizando, num nicho sobre o altar-mor.
Serpenteando no montado, a linha férrea, liga ilusões das feiras de S. João, em Évora, e a de Agosto, em Reguengos. Se tivermos a sorte dum comboio, fumegante e apitando, nos passar ao largo do olhar, os pensamentos voam à sua frente, pousando num carrossel, ou numa rua de feira.    
Não cansa espraiar os olhos na extensa planura, escutando o cumprimento da natureza, generosa e alegre, por nos dar frutos de tanta beleza. Reguengos fica escondida para lá do Barro, como ilha flutuante entre vinhedos. Ali à esquerda, semi-escondida pelos choupos e pelos chaparros do Mouro, a Caridade, ladeada pelo Monte do Barrocal, parece querer beijar o Monte dos Lázaros, que por sua vez, corre para a minha aldeia, através do rio prateado da estrada nova.
Lá ao fundo, à direita, distante, sobre uma colina, o Monte da Casa Alta refulge ombreando com Montoito, mais abaixo na planície.
Aldeias e o Monte da Casinha não se avistam, mas pressente-se a vida dos seus habitantes no ritual do dia a dia.

Ao lado,  logo ali à direita, sob o esvoaçar dos pássaros, o Monte do Outeiro (o outro), parece um punhado de casas atiradas por um duende para a pequena elevação onde foi plantado, deslumbrando-nos com a rusticidade das suas paredes de neve, contornadas por rosas e outras flores, que formam um ramo de muitas cores, e pelo seu aspecto de aldeia de conto de fadas.
Mais abaixo o Monte do tio Costa, um bloco escuro que não foi caiado, desponta na paisagem com os seus altivos eucaliptos, e ao fundo, mesmo ali à mão, como uma boneca branca de cabelos vermelhos, surge a minha terra, pequenina, formando um contraste, onde o alvo das paredes das casas se insinua ao rubro dos telhados e às flores que ornamentam os poiais e os quintais.
Tem o dourado dos Outeirões, bordado de chaparros, sobreiros e oliveiras, por trás a emoldurar as casas de portas e janelas, pequenas e castanhas, aureoladas, normalmente, por frisos de cor azul, ou de oca amarela.
Nos alpendres, espalhados por detrás das habitações, ovelhas e cabras, apoiando-se nas patas traseiras, depenam com os dentes pequenos molhos de erva, pendurados das traves dos tugúrios, enquanto os cães, presos por correntes, brincam atirando-se aos galináceos, assustando-os e gatos ronronando em cima de erva seca e de trapos velhos, accionam o fole das barrigas, à sombra das oliveiras.
Dentro dos quintais há pequenos hortejos, cercados pelos desertos acastanhados das bardas de lenha que os protegem dos animais e demarcam do restante terreno, ofertando-nos um postal de oásis verdes e luxuriantes.
Na rudez das pedras das ruas, no fumo ziguezagueante que sai das chaminés, pressente-se o misticismo pairando como asa envolvente, em todos os cantos e becos, resultante de lendas e contos, passados de geração em geração, contados em frente do lume, nas longas e frias noites de inverno, ou nos serões das mornas noites de estio, ás portas, sob o manto estrelado do firmamento.
Junho, é normalmente um mês de contrastes, em que a aliar-se ao calor do sol, deslumbrante, os campos perfumados, dão-nos visões invulgares, ora verdes, ora dourados, ora o verde amarelado das searas a ficarem maduras, salpicadas de papoulas e marcela,  em que as festas e os rituais se repetem a homenagear o Verão, soberano e acolhedor.
É, também, Junho, desde tempos imemoráveis, mês de Santos Populares e de "sortes".
Na madrugada do dia de Santo António com o galo ainda a dormir, em carroças puxadas por muares, os mancebos partem para Redondo, a fim de, nas suas vestes de "pai Adão", serem inspeccionados na Câmara Municipal, numa sala do primeiro andar.
Alguns sentem a doce alegria da liberdade se a "sorte" lhes sorri, os outros, uma negra dose de melancolia nublará os seus corações porque a "sorte" lhes abre as portas para cumprimento do serviço militar, obrigatório. Mas, no regresso à aldeia, todos mostram satisfação, cantando em cima das carroças, enfeitadas com folhas de palmeiras e flores de aloendro, principalmente quando chegam perto das jovens e das crianças, que a pé, os foram esperar às portas de Montoito.

É, o dia das "sortes", um dos mais bonitos e felizes para aquela gente, boa e simples, onde os dias "grandes" se contam pelos dedos, durante a sua vida de trabalho, árduo e duro. Os pais, orgulham-se de vaidade pelos filhos, belos e robustos, que a natureza lhes deu serem já considerados homens, estes por assim serem vistos e sentirem toda a força e vigor da juventude; as moças por lhes oferecerem, à noite, um bailarico e poderem visitar, de tarde, as residências deles com determinado interesse, na companhia das mulheres mais velhas que, por tradição, vão de casa em casa, visitar e animar as mães dos futuros soldados e, os gaiatos, porque saem da povoação, correndo por covas e outeiros, na sua irrequieta traquinice, escondendo-se aqui e acolá, subindo ou pendurando-se duma árvore, no intuito de colherem uma pêra, ou uma maçã, prematuras, no seu raiar avermelhado, que o dono não descobriu.
Já na véspera as raparigas passaram a tarde no campo, a colher ramos de freixo e de flores campestres, para enfeitarem os “mastaros”.
Cumprindo um ritual, que se reporta à era mudejar, arranjam-se cinco paus, quatro com cerca da altura dum homem e outro um pouco maior, revestem-nos daquela viçosa e bonita matéria espetando-os depois no chão, o maior ao centro, encimado por uma bandeira de papel, e os outros, à volta, com espaço suficiente para à noite, sob os acordes duma concertina, dançarem na "sala de visitas da aldeia", O Largo do Poço, até ao levantar da aurora, do dia seguinte.
Mas nem sempre o dia das “sortes” sorriu à gente da minha terra.
Num ano em que a data se perdeu no ciclo consecutivo do tempo, por um motivo que a ninguém já lembra, aquele dia sempre tão festivo, foi transferido para o S. João.
Houve ainda protestos, mas rapidamente foram sanados dado que, o S. João, é também um dos Santos mais queridos, esquecendo-se o Povo que as lendas poderão conter algo de verídico, e o que deveria ter sido um dia de alegria transformou-se em catástrofe, dor e desgosto.
Como as casas da aldeia não têm instalações sanitárias. Manda a tradição que os mancebos se libertem do suor e do pó dos campos num tanque junto da nora do Monte Abaixo, à noitinha, fora de olhares curiosos, na véspera do dia das "sortes".
No ano maldito, dos cinco rapazes que deveriam apresentar-se em Redondo, apenas quatro o fizeram, porque o mais robusto, garboso e valente jovem, por quem muitas mulheres morriam de amores, desapareceu para nunca mais ser visto.
Era pastor, o desditoso moço que, por motivos imprevistos, ficou retido junto do rebanho, durante a noite, apenas podendo lavar-se, e só, na manhã do dia de má sorte.
Despontavam os primeiros raios solares, enchendo a planície duma aguarela alaranjada quando José Lourenço, com um arrepio, se dispunha a sair da água fresca do tanque, onde semeara pó, suor e calor com que a noite quente de verão o bafejara, sem se ter apercebido que, a seu lado, apenas dois, três metros, numa fenomenal metamorfose a nora se alargou, afastando as paredes de blocos vermelhos, como pétalas de rosa douradas a abrir-se, para dar lugar a um espectáculo inigualável, de acordo  com o teor da lenda.
Nas manhãs de S. João uma figura, metade mulher, metade cobra, reaparece junto do gargalo da nora, vinda das profundezas, erecta e altiva, em cima de alcatruzes, resplandecentes, num extraordinário ritual, onde seis escravos seminus, de pele escura, a esperam perfilados, enquanto outro conduz o magnífico ginete branco que, atrelado a um dispositivo mecânico, acciona a engrenagem.
Depois, sob um dossel de finos brocados, impregnados de embriagantes perfumes, sentada sobre tapetes inigualáveis, aquela mítica figura de tronco esbelto e rosto moreno, de rara beleza, escondendo a metade réptil debaixo dum vestido comprido, azul celeste, semeado de pedrarias, penteia os longos cabelos negros com um pente de oiro fino, cantando hinos de perdição, que transmitem uma mensagem maldita, de Afrodite, no intuito de atrair e despedaçar de amor e desejo o coração dos varões possantes e viris de vinte anos.
Quando o infeliz pastor escutou os primeiros acordes, dos sete instrumentos, tocados por igual número de escravas desnudadas, que acompanhavam a voz da perdição, estupefacto virou a cabeça na sua direcção fixando os olhos nos belos olhos do desejo. De seguida, incontrolável, num impulsivo e ágil salto de felino, mostrando o corpo escultural e viril, em toda a sua plenitude, sob os olhares cobiçosos das serviçais enleou-se loucamente no abraço que o perdeu definitivamente e o levou para o encanto.
Ficou cego quem de longe viu e contou. E nos dias de hoje ainda paira algum medo e terror na aldeia, até os varões de tenra idade costumam ser avisados para nunca se aproximarem da nora, nas manhãs de S. João, porque a "Cobra Moura" poderá surpreende-los e levá-los para o seu palácio de oiro, onde acabará por os eliminar, na louca ânsia do amor, tentando conceber filhos, à imagem dos homens, o que jamais acontecerá, porque ela foi amaldiçoada.




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA

01.02.2018 - a partir de texto de 1988 
(fotografia: António Caeiro)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Crónicas do Alto da Vila | por Luís Filipe Marcão | 01.01.2018

Viva o Novo Ano

Não sei com que palavras irei encetar 2018. Pensei em tantas. Cheguei aqui, a este cabeço onde se ergue Monsaraz e ao lado dos cantadores que já fazem parte deste sítio, bebi a paisagem. Avisto a ponte qual centopeia ligando as margens, o grande lago embalando a minha tranquilidade, mais ao longe as terras de Espanha, mais à esquerda, lá em baixo a praia fluvial e atrás as muralhas do castelo, a bandeira drapejando no alto da torre de menagem. Quantos olhares seguiram o mesmo percurso?

 É verdade que este local tem uma magia própria, genius locci, espécie de termas para o espírito de quem precisa de um pouco de inspiração ou retemperar as forças criativas. Daqui por alguns anos outros tomarão o nosso lugar à descoberta da originalidade. Com que palavras encetaremos 2018?
As mesmas de sempre? Paz, saúde, Amor, fraternidade? Com que desejos vou embrulhar o novo ano? Mais justiça, mais igualdade, mais tolerância, mais dignidade e oportunidades?   
 Que projectos e intenções trazemos escondidos na manga? As tais corridinhas de manhã para abater tecidos adiposos, o largar de vez o cigarro? O tal mealheiro conta-gotas para imprevistos, o curso que ficou em meio, os idiomas que nunca falámos? Os livros que continuam na estante sem ser lidos, as palavras sem-abrigo que vivem solitárias sem o aconchego de um poema?
 Recordo muitos dos votos proclamados em datas anteriores e, no ano novo ainda a gatinhar, sempre descobri alguma semelhança com os cadernos que utilizava nas aulas da primária. Nas primeiras páginas tudo muito certinho, letra aprumada, folha limpa de borrões, sem erros, numa tentativa de honesta mudança. Algumas folhas à frente, passado o efeito psicológico do início, voltava a caligrafia irregular, as cópias despachadas esquecidas da pontuação, o olhar reprovador da professora inclinado sobre as evidencias da cabulice e falta de zelo.

 Sempre fui um habitué do dicionário, aquele livro volumoso que contém todos os vocábulos. Lembro-me de gostar em particular do H talvez porque as palavras não eram assim tantas e eu entendia que elas deveriam ter a mesma procura e importância que as outras irmãs do alfabeto.

  
  Para este ano de 2018 ainda a saber a champanhe vou escolher humanização harmonia e humildade como pilares e desígnios de novos hábitos que resgatem o homem e o transformem num hino de alegria.

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
01.01.2018 
(fotos: António Caeiro)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Crónicas do Alto da Vila | por Manuel Manços | 01.11.2017

      Nunca será demais referir o que foi, anos antes,  a injusta e grotesca “Guerra no Ultramar”, nem ela poderá ser esquecida, enquanto houver um ex-combatente vivo, principalmente, pelo que devemos à memória dos mortos, de estropiados (gente a quem desfizeram a vida de um momento para o outro) e de todos aqueles que lá fomos deixar um bocado da “nossa melhor juventude”, nos melhores anos das nossas vidas e para quê... passados mais de quarenta anos os frutos são bem visíveis. Muito poderia revelar sobre o que vi e vivi, durante vinte meses, mas essas revelações encontram-se escritas nas páginas de dois livros que redigi. No entanto eu tive sorte, porque encontrei pessoas da minha Terra a residir na cidade de Nampula e me trataram como se fosse seu filho, durante o tempo que lá estive. Todas as guerras são injustas e criminosas, e transportam muita gente nas “enxurradas do crime” e em “situações humanas” teriam um comportamento, dito normal.
      Decidi homenagear pessoas injustiçadas e divulgar uma pequena ficção, baseada em factos verídicos, relacionados com a situação de crianças “mulatas”, filhas de africanas e de soldados portugueses, que viviam maritalmente enquanto lá se encontravam, mas quando regressavam à Metrópole deixavam-nas abandonadas, como se o seu sangue não lhes corresse na veias.

      Raul, havia terminado a sua participação, como cantor, no naipe de tenores,  num concerto de Música Coral, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa. Esperava junto da respectiva paragem, um autocarro, que o transportasse ao Terreiro do Paço e, distraído, com o olhar distante, observava os carros e as pessoas que passavam, e quase se atropelavam, pelo facto de ser quase noite e pela pressa que tinham em chegar às suas residências. Depois de alguns minutos à espera, chegou um autocarro, o nº 45, com destino ao Cais do Sodré. Do “novelo” de passageiros que se apearam, destacou-se um jovem mulato muito novo, ainda, e com boa figura, Raul poderia até dizer que ele era um jovem bonito, e a miscelânea de traços, no seu rosto, faziam-lhe recordar não sabia quem, e ele conhecia, que o fez estremecer pela empatia que se estabeleceu entre ambos. A fisionomia que o rapaz apresentava sensibilizou-o, e criou-lhe mau estar e desconforto, por se sentir atraído pela esbelta figura dum homem jovem, que ele não conhecia, e no entanto dava-lhe a  impressão que, ou já o vira algures, ou se parecia e muito, com alguém das suas amizades. Instintivamente pressentiu que a sua figura também impressionava o outro que, no entanto, preso aos seus olhos não deixou de caminhar na sua direcção para perguntar:

       - O senhor importa-se de me indicar onde fica a Cidade Universitária? Pela descrição que me fizeram, penso que estarei próximo das suas intalações...
      Raul deu a informação de que ele precisava, com voz embargada, sem compreender o fenómeno que se passava consigo, naquele momento, de sensibilizado que estava. O outro continuou, sorrindo e com amabilidade na voz referiu:
      - Agradeço a sua informação, porque não conheço Lisboa. Acabei de chegar de África, venho colaborar num congresso, que se realizará amanhã na Aula Magna... mas desculpe, a minha pergunta, que poderá parecer impertinente e eu não o quero incomodar:
      - Não nos encontrámos já...? Creio que a sua cara não me é estranha. Parece, pela sua reacção, que o senhor também me conhece. Esteve alguma vez em África, mais propriamente, em Moçambique...?
      - Sim, já estive em África, mais propriamente no norte de Moçambique, onde não vou... vai para mais de trinta anos. Cumpri lá o serviço militar, obrigatório. Se nunca veio a Portugal é impossível que nos tenhamos visto já e encontrado alguma vez, ou que nos conheçamos, dada a sua juventude. Quando de lá saí, você provavelmente ainda não teria nascido, ou seria uma criança de poucos meses, ou anos. Como sabe, há pessoas muito parecidas, mas o mais estranho é que estejamos ambos com a sensação de já nos termos visto, alguma vez...
      Raul, pressentindo que algo de invulgar se passava, esteve quase a comentar que precisamente, no norte de Moçambique, tinha abandonado dois filhos, provavelmente com idades aproximadas às que ele parentava, mas coibiu-se de o fazer. Além da vergonha que provocam, há segredos que não se devem divulgar nunca, pelos danos que podem causar. Mais uma vez os seus medos e a sua cobardia tinham vencido.
      - Sabe, sou filho duma africana e do “vento que atravessou as palmeiras, num dia de muito sol”. Minha mãe dava-me essa resposta quando, sentado à porta da nossa humilde palhota, em criança, lhe perguntava o nome de meu pai.
      -  Mas não chegou a conhecer o nome de seu pai? Perguntou Raul, curioso com ambas as pernas a querem  falhar.
      - Não senhor. Apenas sei que sou filho dum tropa, português, que decidiu fugir para a Metrópole, antes da independência de Moçambique..., mas tive sorte. Um amigo de meu pai voltou a Nampula e quando um dia me viu nas ruas da cidade andrajoso e com fome, levou-me para sua casa, a mim e a meu irmão, depois de se ter inteirado da nossa identidade, saciou-nos a fome e mandou-nos tirar um curso Superior.
      - E como se chama, ou chamava esse amigo de seu pai, pode ser que eu o conheça. Estive lá, é bem provável que eu o conheça?
      - É um alentejano de muito bom coração, chama-se Brites Rosado. É de Reguengos, próximo da aldeia onde o meu pai nasceu e cresceu, conhece-o?
      - Não, nunca ouvi falar nesse nome – respondeu Raul, mantendo-se de pé, sem saber como, nem porquê – e seu irmão, está bem, que curso fez ele?

      - O meu irmão está bem! Tem dois meninos, com eu tenho e é professor na cidade de Nampula e não desiste de procurar, por todos os lados, o nosso pai, uma vez que nossa mãe se nega a faze-lo – respondeu o jovem africano, curioso pela pergunta que o outro lhe havia feito.
      Sensibilizado, Raul comentou para os seus botões: Até nesse aspecto saem a mim, “só geramos rapazes...”
      De madrugada, num sonho calmo, que lhe traria as melhores recordações de outros tempos, Raul “amou a negra” com quem tinha vivido, em Moçambique, vendo-se depois rodeado pelos filhos, de ambos. Brincava e corria com eles pela mata africana, depois o sonho nublava-se e via-se a abraçar o rapaz que havia encontrado na tarde do dia anterior para o beijar, com ternura, como se ele lhe pertencesse, e lhe provocou uma sensação de amor e de desconforto, acabando por concordar, na escuridão da noite, sem sono, que nada acontece por acaso, na existência do ser humano, havendo mistérios difíceis de explicar, ou não... Além disso Brites Rosado estava metido no assunto.

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
01.11.2017 
(foto: António Caeiro)