sexta-feira, 15 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Vértice Geodésico

Um vértice geodésico (popularmente chamado "talefe" em Portugal, e "Pinoco" no Norte de Portugal) é um sinal que indica uma posição cartográfica exacta e que forma parte de uma rede de triângulos com outros vértices geodésicos. São escolhidos sítios altos e isolados com linha de visão para outros vértices.

A rede geodésica portuguesa é formada por vértices geodésicos que se dividem em três ordens de importância:
1ª Ordem - pirâmides distando 30 a 60 km
2ª Ordem - cilindro + cone listados distando 20 a 30 km
3ª Ordem - cilindro + cone distando 5 a 10 km




                                                               texto e imagem: internet 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Pentagramas e Templários

O Pentagrama, estrela com cinco pontas, é um símbolo de protecção ancestral usado, por exemplo, pelos Pitagóricos na Grécia Antiga.
Na Idade Média este símbolo não era associado aos Judeus, tanto o Selo de Salomão como o Escudo de David eram usados por várias religiões.
O Escudo de David, estrela com seis pontas ou Magen David, só começou a ser associado ao Judeus no século XIX com o movimento Sionista.
Por aqui, na raia alentejana, o Pentagrama ainda é usado em portas, janelas, fornos, abrigos de pastores,.....
Pensamos tenha chegado às terras de fronteira com os Cavaleiros Templários.
Encontramos várias Cruzes Templárias associadas a Pentagramas.

Em Monsaraz temos outras heranças Templárias, a Ermida de Santa Catarina, com a sua forma octogonal, e o Sarcófago do Templário Gomes Martins.

link para o trabalho pioneiro, sobre o Pentagrama, de Leite de Vasconcelos.


Ermida - Torre de Santa Catarina, de forma octogonal e orago oriental, protegendo uma rota ancestral de peregrinação,  do Sul de Espanha para o Santuário de Terena, passando por Monsaraz.
















Na Igreja de Nossa Senhora da Lagoa podemos encontrar este Sarcófago Templário, no relevo da procissão funerária destacamos a Cruz Templária e o Brasão das Três Chaves, eram necessárias três chaves em posse de três Cavaleiros Templários para aceder ao Selo da Ordem Templária





Pentagrama e Cruz Templária em Estela Funerária na Casa da Inquisição 
em Monsaraz.



Pentagrama em Estela no mesmo local.




texto e imagens: Luís Lobato Faria

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Marco

Este marco, que se encontra na Rua Direita, segundo consta, sinalizava uma das divisões da Freguesia de Monsaraz. A Vila chegou a administrar três freguesias: a Matriz de Santa Maria da Lagoa, Santiago e São Bartolomeu. Segundo alguns relatos de montesarenses, este é o marco que dividia a freguesia de Santiago e a de Santa Maria da Lagoa.

Este marco, de acordo com o relato de Nuno Pedrosa, é o reaproveitamento de uma cabeceira de sepultura de forma discóide.




                                        texto e imagem: António Caeiro

domingo, 3 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Ermida de S. João Baptista

Uma parte de Monsaraz pouco visitada mas cheia de História.
No Baluarte de S João, parte da Fortificação Abaluartada de século XVII, encontramos uma Escavação Arqueológica, uma Ermida - Qubba e uma Necrópole.
A Escavação Arqueológica revelou as divisões de um edificio provavelmente religioso da Idade Média, destacamos a espectacular e conservada Calçada Portuguesa.
A Ermida de S João Baptista foi provavelmente uma Qubba, uma Capela Islâmica. A sua Orientação, Forma, Dimensões e outras variáveis assim o indicam. Interessante que uma das Portas Medievais de Monsaraz se chama Porta da Alcoba, a Porta da Qubba. Os Frescos dentro da Ermida são muito interessantes.

A Necrópole de Sepulturas Escavadas na Rocha seria enorme. Estas Sepulturas eram antropomórficas, apresentam a forma do corpo humano. Em algumas delas ainda podemos ver o encaixe das tampas. Uma destas tampas foi reutilizada na Praça de Touros. As sepulturas são Cristãs, posteriores à Qubba, mas anteriores à Calçada Portuguesa. Uma das Sepulturas com diferente orientação pode mesmo ser Islâmica.




                                           Ermida - Qubba de S João Baptista




Edifício posto a descoberto pela Escavação Arqueológica


Sepulturas Escavadas na Rocha





Frescos da Ermida de S. João Baptista








texto e imagens: Luís Lobato Faria

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.09.2017

Monsaraz profetisa

Estou a ler um livro, neste momento, que fala acerca da necessidade de preservar a nossa natureza selvagem. – Fala deste aspecto como uma necessidade básica da nossa raiz, do nosso âmago, da nossa espontaneidade, logo, do que é mais autêntico em nós.
Acontece que com o tempo essa parcela, que é muito mais a capacidade de conseguir contemplar as bênçãos que nos rodeiam do que um acto de violência (porque muitos compreendem ainda a palavra selvagem pejorativamente), vai sendo substituída pelo relógio a bater a hora antes da hora, pelo burburinho de fundo de uma cidade dita civilizada, pela urgência que é chegar ao dia e fazer o dia chegar com tudo o que o dia comporta e com tudo a que o dia nos obriga – sem que nos obrigue, um único momento, a parar.
Estou a ler um livro que fala da importância do contacto com a natureza. Do contacto, não só no seu sentido metafórico, mas no seu sentido mais real: na sensação de tocar a rocha áspera e quente em meio do Verão alentejano, em sentir a água brincar no peito do pé, refrescante, em fechar os olhos e deixar o cabelo revoltear e dançar com o vento. – Ser parte e não observante apenas. Ser, também, natureza. Selvagem.
Há uma vilazinha, pequena, mas dita rainha a coroar um monte no meio de terriolas e águas extensas que me recorda estas parcelas de que falava. Essa vilazinha, dizem, resplandece ao sol do Verão e desaparece como que por magia nos dias nublados do Inverno – onde a magia se esconde ainda mais. Onde a natureza toca o sublime e místico, rainha, torna-se ainda mais deusa maga, profetisa da sabedoria das origens tornando o mais natural dos fenómenos quase que numa porta para um outro mundo. Esse mundo, apenas aqueles que ainda não visitaram essa vilazinha, não compreendem. Todos os outros que a calcam ou já calcaram o carregam ao peito com orgulho e saudades.
Falar de Monsaraz no momento que Monsaraz vive, não é fácil, caro leitor. Partilhar o meu local de eleição para voltar ao mais autêntico de mim, ao lado simples e “selvagem”, com pessoas que ainda não lhe conhecem o poder de cura passou de um medo de incompreensão para a esperança de que acabasse por ser tão embalada e respeitada como por mim o é. – Porque Monsaraz tem realmente esse poder de cura: esse poder de nos obrigar a parar, a esquecer a urgência e a viver a plena calma necessária para restaurar a alma, para voltar a aceder á autenticidade e á espontaneidade do que é ser-se pessoa simples no meio dos mistérios naturais.

A verdade é que é impossível ver Monsaraz e não a levar no coração. É impossível não ser tocado pelos céus negros onde fulgem ligeiros pontos prateados formando uma abóbada celestial tão imensa que os nossos corpos começam a sentir-se pequenos, os nossos problemas começam a assemelhar-se a formigas viajantes, os nossos olhos já comungam do brilho da abóbada e naquele momento ficamos felizes por estar ali. Felizes apenas por estar ali. Felizes por testemunhar a grandeza da simplicidade – Porque é isso também que Monsaraz nos dá. A noção de que o simples tem uma beleza própria. A raiz. Os campos. As mãos sujas dos homens que trabalham os campos e voltam á raiz. E abraçam a raiz. – o início.

Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.09.2017
(Fotografia de António Caeiro)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

A LENDA DOS ALOENDROS

Reza a lenda que um jovem cavaleiro português e alentejano, filho do Conde do Monte Esporão, chegou decidido a conquistar Monsaraz. O rei Arabe tinha uma filha chamada Alandra. O jovem cavaleiro e a jovem princesa moura enamoraram-se.
Estávamos na época da conquista do nosso território aos Mouros. Os Portugueses queriam entrar nas muralhas de Monsaraz e Alhandra ajudou o jovem Conde do Monte Esporão a entrar, sob a condição de ele não matar nem mulheres, nem crianças e em troca poderia tê-la a seu lado.
O cavaleiro cumpriu o prometido. Quando chegou a casa em vez da princesa prometida, estava ali enviado pela princesa um lindo ramo de aloendros vermelhos. o jovem Conde do Monte Esporão, perdidamente apaixonado, chorou e de seus olhos brotaram lágrimas de sangue pela amargura de ter perdido o seu amor.
Dizem que o rei mouro preferiu matar a filha. Alandra, que ficou para sempre encantada no alandroeiro, ou alandro, ainda hoje vive na rua transversal em frente à Igreja Matriz.





Pesquisa de Ana Maria Saraiva
Foto: António Caeiro


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: medidas

Na Porta da Vila, no dorso da ombreira, vislumbram-se a vara e o côvado, medidas usadas na época medieval. 

Vara 
Utilizada no Império Romano, chamada Pertica, valia 10 pés de comprimento, equivalente a, aproximadamente, 2,96 metros. Em Portugal e no Brasil, até à introdução do sistema métrico, a Vara era a unidade básica de medidas lineares, valendo 5 palmos de craveira, ou seja 1,1 metros. 

Côvado 
Medida de comprimento que foi usada por diversas civilizações antigas. Era baseado no comprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo. Ninguém sabe quando esta medida entrou em uso. O côvado era usado regularmente por vários povos antigos, entre eles os babilônios, egípcios e hebreus. O côvado real dos antigos egípcios media 53cm. O dos romanos media 44,5cm.




texto e imagem: António Caeiro

sexta-feira, 23 de junho de 2017

À Soalheira, o Alentejo e as suas Sonoridades…

 

PORTAL DO TEMPO | #30 | 23.06.2017
À Soalheira, o Alentejo e as suas Sonoridades…
Emissão do Portal do Tempo inteiramente dedicada ao ALENTEJO.

00. intro
01. Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel ◊ Hino dos Mineiros
02. GAC Vozes na Luta ◊ o Alentejo é um Jardim
03. Os Vocalistas ◊ É tão grande o Alentejo
04. Gaiteiros de Lisboa ◊ A Ribeira de Sol Posto
05. Os Ganhões de Castro Verde ◊ Camponês Alentejano
06. Grupo Coral da Freguesia de Monsaraz ◊ Hino ao Alentejo
07. Grupo Coral os Camponeses de Pias ◊ Dás Pão
08. Adiafa ◊ Não quero que vás a monda
09. Ronda dos Quatro Caminhos ◊ Gota de Água
10. Grupo Coral da Freguesia de Monsaraz ◊ Linda Jovem era Pastora
11. IX Encontro de Culturas Dia do Cante em Serpa ◊ …
12. Grupo Coral de Beja ◊ Quando eu era Ganhão
13. gravado na Taberna Típica “O Lucas”  em Cuba ◊ …
14. Brigada Victor Jara ◊ Ao romper da Bela Aurora
15. Grupo Banza ◊ Montinho
16. Grupo Coral de Cantares de Portel ◊ Laranja da China
17. Os Bafos de Baco ◊ Os Guardas bateram (gravado na Taberna Típica “O Lucas”  em Cuba)
18. Grupo Coral Os Bubedanas ◊ É Tão Grande o Alentejo



 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Final do Dia...

“… observem o pôr do sol de um dia de Agosto, e oiçam o som... o som do pôr do sol ... o som do silêncio! É inexplicável e inebriante. Uma experiência para toda a vida”. 


(texto jcrusso) | (imagem António Caeiro)


terça-feira, 12 de julho de 2016

OS 11 ANOS DO BLOG “MONSARAZ em fotos”


12 de Julho de 2005, foi a data do primeiro post no blog “Monsaraz”,  criado por António Caeiro, para divulgar e homenagear a sua terra de adopção - A Vila de Monsaraz, ou como diria José Cutileiro, em “Ricos e Pobres no Alentejo” a “Vila Velha”.
Desde então,  António Caeiro, foi aumentando este espaço, enriqueceu-o com as suas próprias fotografias, e depois com as de outros fotógrafos, como foi o caso de David Ramalho e de João Fructuosa; esse enriquecimento foi sendo sempre melhorado com a criação de várias “rubricas”, das quais se destacam: “Outras artes”, “Outros Tempos”, “Monsaraz por outros Olhos”, “Aldrabas e Batentes de Monsaraz”, “Crónicas do Alto da Vila”; foram publicados contos de autores alentejanos, amantes, também eles, da “Vila Velha” – MONSARAZ –

A magia de Monsaraz, captada “pela sua lente”, viria a dar origem à primeira incursão de António Caeiro, ao mundo da impressão, em formato de Livro, sendo editado com o selo da Mindaffair/almalusa.org, “O Silêncio das Pedras”, que inclui ao longo de cem páginas (com dimensão de 25X25cm), um conjunto de imagens captadas pelo autor, que foram separadas por dois temas: “Olhar Monsaraz” e “Outros Olhares”.

A escolha do tema “Olhar Monsaraz”, não foi ao acaso, porque contempla uma singela homenagem à bela Vila Medieval.
“O Silêncio das Pedras”, conta com um texto de introdução, elaborado pelo poeta, escritor e dramaturgo, Paulo José Miranda que refere, a dado passo: “De um ponto de vista fotográfico, de um ponto de vista de luz e seus registos, estas fotografias confrontam o azul com o resto.”

Com a colaboração dos fotógrafos amadores, já citados, e dos Poetas, Anabela Soares, Cecília Vilas Boas, Inês Valadas, Isabel Vieira, José Luís Outono, Jesuino Vieira, Manuel A. Belo Silva, Manuel Manços Assunção Pedro, Manuel Sérgio, Maria Antonieta Matos, Maria José Lascas Fernandes, Maria Pereira Gonçalves, Paula Cristina Costa e Rosa Guerreiro Dias, surgem mais dois livros, homenageando a Vila Velha: “POETIZAR MONSARAZ”. (Vol ‘s I e II).

Foi realizada a exposição de fotografia, “Monsaraz - entre o céu e a terra”, apresentada e inaugurada, em Lisboa, na Casa do Alentejo e na Igreja de Santiago,  em Monsaraz.

Três olhares… a mesma Vila!

Trata-se de um conjunto de imagens sobre Monsaraz, captadas pela lente de António Caeiro (Aldeia de Paio Pires), David Ramalho (Reguengos de Monsaraz) e João Fructuosa (Campinho).
António Caeiro, quer através da sua lente, quer como coordenador de trabalhos e livros de fotografia e de fotografia e poesia, pretende mostrar a Vila de Monsaraz  e fá-lo soberbamente.

Leva-nos a manifestar interesse e a querer conhecer o verdadeiro Alentejo.  Quando nos deslocamos a Monsaraz, percorremos as suas estradas, quase desertas, sentimos as suas planícies e montes onde, de vez em quando, podemos observar uma casa “salpicada”, na paisagem.

Ao chegarmos a Monsaraz, encontramos uma vila, muralhada, com poucas centenas de habitantes, de casas caiadas de branco e chão empedrado (do xisto de Monsaraz), pendurada num monte, de onde avistamos o maior lago artificial da Europa – O Alqueva – e  terras de Espanha, de onde tantas vezes nos chegava o inimigo, que logo nos obrigava a defender e a atacá-lo do alto do castelo da referida Vila.

António Caeiro, e seus convidados, através das suas lentes, ou palavras captam tudo aquilo que nos diz Francisco Martins Ramos, in TERRAS DO MEU ENCANTO  - MONSARAZ:
Chegados ao cimo da colina, montanha soberba à escala minúscula dos homens e que domina o mundo raso envolvente, quedamo-nos, silenciosos e reduzidos, frente à Porta da Vila, que iremos ultrapassar, curiosos e inseguros: entrar na vila é dar o primeiro passo na aventura da descoberta. Entramos; se é inverno, inebria-nos o cheiro alucinogénio do aroma das estevas a arder em lareiras escondidas; se é verão, acaricia-nos o bafo morno da brisa reflectida pelo xisto causticado de séculos e pela cal teimosamente indelével.”
“Fazemos o périplo da vila, encostados às muralhas, invadimos os quintais minúsculos, santuários da agricultura de jardim, imaginamos as delícias gastronómicas que o odor que se espalha pelas portas e chaminés nos provoca, inventamos miradouros na esquina de cada rua, imaginamos o rio, ribeira em tempo de verão, a correr mansa e exaurida, para lá do outeiro de São Gens. Espreguiçamos o olhar para as bandas da Extremadura espanhola, descobrimos no horizonte o “país dos sacaios”, voltamos à torre grande que vigia o cemitério, sítio bom para se repousar, onde a morte parece mais organizada que a vida.

Queremos voltar ao centro do mundo e deixamo-nos perder e embalar no labirinto de ruas e ruelas e nas teorias do imaginário urbano.” (FRANCISCO MARTINS RAMOS, 2006, in “BREVIÁRIO ALENTEJANO”, págs. 52 e 53.)

Obrigada António Caeiro pelo Blog e Facebook que criou e faz crescer, mostrando e divulgando a Mágica Vila de Monsaraz e que os mesmos se mantenham por mais 11 anos.

Texto:
Ana Maria Saraiva
12.JUL.2016

Fotografia:
António Caeiro
12.JUL.2005 (a primeira fotografia do Blog)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Presépio de Rua, em Monsaraz.



Presépio de rua com figuras de tamanho real, da autoria de Teresa Martins, disposto pelas várias ruas da vila medieval de Monsaraz

Fotografias do Presépio em 2014 AQUI


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

"Noite de Fados em Monsaraz", por Manuel Manços Assunção Pedro

      Sabedoras daquela tradição, tanto Amália Maria, como a mãe de Raul fizeram questão de oferecerem a fotografia do seu ente querido, à Senhora do Rosário, em São Pedro do Corval, para que Ela o protegesse e ele enfrentasse o perigo, com coragem na mata, em Moçambique.
      Em Monsaraz, “A Noite de Fados”, meses antes aprazada, efectuou-se num recinto, que em tempos recuados havia servido, como praça de armas, e no presente funcionava como arena, onde decorriam as touradas, principalmente durante as festas de verão, e noutros espectáculos diversificados, e encontrava-se localizada no interior das muralhas do seu castelo medieval. Provavelmente, por ser a sua última actuação, antes de seguir para África, Raul ficaria desatento e ansioso, sentiu até uma espécie de formigueiro a percorrer-lhe o corpo, e por pouco não contagiou, com os seus sintomas, a boa disposição de Amália Maria. No seu ar doce e calmo, a jovem viu-se na obrigação de lhe recordar que o êxito do espectáculo, ou do seu descalabro, dependeria do desempenho que ambos tivessem. Ela, nunca havia presenciado à sua estranha forma de agir, momentânea, desconhecia até a faceta mais derrotista que Raul decidira revelar, que o arrasava e ela sentiu-se magoada. Ali, naquele local, Raul revelou a sua faceta de indivíduo brusco e revoltado. Por reconhecer que a sua companheira tinha razão, respondeu-lhe grosseira e despropositadamente e amuou, a seguir, enquanto jurava que não actuaria, por falta de interesse e até de voz.
      Aflitos e receando pelo fiasco que o espectáculo pudesse vir a ter, tanto os pais de Raul, como os pais de Amália, decidiram chamá-lo para fora de olhares estranhos, e sem pressões, esforçaram-se por incutir algum juízo, no desequilíbrio, que a sua cabeça manifestava, fazendo-lhe ver que ele não poderia desistir de cantar, naquela noite, porque seria a última em que o poderia fazer, durante os tempos mais próximos, e em território Metropolitano, com o risco de arrastar pela lama, a sua, e a carreira da sua companheira, mas teimoso, ele insistiu que regressaria a casa de seus pais, porque cantar, era a última coisa lhe apetecia fazer, naqueles momentos de desespero, e para desalento de quem assistia ao desenrolar do seu triste estado patológico, fez uma tentativa para abandonar o castelo. No entanto, quando se dirigia para a saída, como se um raio trespassasse uma azinheira, seria acometido por uma crise de choro que o varou de alto a baixo, e lhe devolveu o alento e o equilíbrio psíquico, que dele se tinham afastado. Afinal, ele “havia passado a noite a lutar, em terras de África”, alagado em suores frios, e fora envolvido num pesadelo, que parecia nunca mais ter fim. Pensar que o obrigariam a abandonar Amália Maria e a seu filho, sem lhe darem, sequer, a felicidade de o vir a conhecer, tinham-no colocado num estado de loucura.
      Sentindo, depois, arrependimento, e o arrependimento mata, pela incoerência do seu anterior procedimento, abeirou-se da sua companheira com paixão, beijou-a, e pediu-lhe perdão, pela reacção negativa, com que a havia magoado. Por ter calculado a razão dos seus reais motivos Amália Maria, disse, apenas: “- A noite está linda, Raul…, vamos divertir o público, que nos espera lá fora, e oferecer-lhe os melhores fados, que integram os nossos repertórios. Lembra-te, meu amor, que temos que fazer desta, uma noite memorável, especialmente só para nós, como se ela fosse a única, a derradeira, para as nossas vidas, uma vez que o triste afastamento que nos impõem, durante um período de tempo tão longo, assim vai parecer. Vai em frente que, presentemente, nas nossas vidas não há, nem poderá haver lugar para arrependimentos. Esqueçamos, pois, o lado negativo do que se passou contigo e vivamos os melhores momentos em que estivermos juntos. Tento compreender a tua reacção, de há momentos, e sei que o amor e o desespero te cegaram, mas agora vamos, chega de retórica, que lá fora já esperam por nós e não podemos desiludir ninguém. 
      De mão dadas, sob forte emoção, resultante dos momentos dramáticos, que tinham vivido, momentos antes, e de vibrantes e calorosos aplausos, com que o público os brindaria, Raul e Amália Maria, dirigiram-se para um palco, que havia sido colocado propositadamente, para aquele grandioso evento, na arena do Castelo Medieval de Monsaraz. O palco, em redor, havia sido engalanado por folhas de palmeiras, entrelaçadas e unidas por cordas, que haviam sido revestidas de ervas verdes, que misturaram com flores, mas dispostas de forma a que os dois fadistas fossem vistos de todos os ângulos, sem obstruções, e ambos tivessem entrado numa moradia de deuses. No momento em que eles pisaram o recinto, onde se realizaria o espectáculo, foi lançada uma salva de foguetes, com o intuito de os homenagear, porque eles foram recebidos como personagens pertencentes à realeza, não fosse a sua personalidade, concebida pela modéstia e ter-se-iam sentido seres fora do comum, dos mortais, naquele ambiente.
      No firmamento, para espreitar o que se passava cá em baixo, na Terra, a lua cheia, passeava altaneira, lançando os seus raios de prata, que envolviam as ameias do castelo, em limalhas de luz, dando até a ideia que cumprimentavam e envolviam os espectadores na sua magia, incutindo no seu espírito que, naquelas ameias, haveria grupos de mouros escondidos, num jogo de esconde, esconde, e se preparavam para conquistar as damas, que lhes arrebatavam os corações, estas, por sua vez, encontravam-se escondidas nos segredos das muralhas.
      Depois da grande homenagem, também ela simbolizada, por fartos aplausos, que parecia não ter fim, o espectáculo musical começou com um fado interpretado por Amália Maria, que provocaria no público uma sensação de paz, bem estar e de euforia e, simultaneamente, pela voz e pela bela figura da jovem fadista, que se apresentou envolvida na elegância dum vestido preto e rendado, que lhe realçava a beleza morena, mas dissimulava o volume do seu abdómen. Seguidamente, o público, rendido, pediu para que ela cantasse outros fados e ela acedeu e fê-lo com o prazer de quem gostava de cantar e agradar aos seus admiradores, mas depois, quando sentiu que o cansaço lhe começava a invadir o corpo e o espírito, fez sinal ao seu companheiro, para que ele ocupasse o seu lugar e Raul, sorridente, avançou na sua direcção, pegou-lhe numa mão, como já o tinha feito em vezes anteriores, e levou-a até junto do público, como se a apresentasse pela primeira vez, articulando, a seguir, um pequeno discurso, o seu discurso de despedida, onde passaria a expor e a confessar o que lhe ia na alma, naquele momento:
      “- Esta noite é para ser vivida com alegria, porque tanto eu, como Amália Maria, e devido à vossa preciosa colaboração, propomos torná-la numa das mais bonitas e alegres da nossa existência. No entanto, nunca será demais deixarmos de lado, ainda que por momentos, a referida alegria, para expormos algumas tristes realidades, com que os jovens se debatem, presentemente. Por exemplo, a falta de emprego e de condições adequadas e condignas, para poderem usufruir de melhor vivência, nas suas regiões. Ainda que haja gente que defenda o contrário, nunca foi, nem será tarefa fácil sairmos das nossas terras, das nossas casas para deixarmos as nossas famílias e os nossos amigos, tendo em vista outro destino e outras paragens, quase sempre desconhecidas, em procura de melhor vida, porque o meio onde nascemos e mantemos, bem seguras, as nossas raízes não no-la podem dar. Amo, ardentemente, o meu Alentejo, que continua a guardar os meus maiores tesouros físicos e sentimentais. Aqui dão-me amor, que representa o sentimento mais forte que existe à face do Universo e mais poderei ambicionar, vindo do meu semelhante. A Terra é boa, tem magia, convida-nos a conhece-la e a amá-la, mas a Terra que possui aquele sentimento, que nos indicia a que lhe chamemos, carinhosamente, de mãe, pertence somente a alguns. Creio que compreendem o que quero dizer, porque eu sempre a amarei, independente do que ela foi, ou poderá ser no futuro.
      Para a maioria, dos que aqui vivem, forçosamente, e sem no querer, ela representa mais a função de madrasta. Foi por sentir que ela me tratava, com o último sentimento que referi, que a deixei, mas a que custo...? Senti medo e desgosto quando tive de partilhar outras amizades e enfrentar os usos e os costumes da nova terra que me abriu os braços e acolheu. Com todas as contradições que encontrei, Lisboa foi e será sempre a minha segunda, ou terceira Terra, porque para além da minha aldeia, “tenho outra mãe” na bela Reguengos, que também me acolheu e ainda há o Barreiro... Claro, que a causadora de eu me ter afeiçoado, tanto, à nossa bela Capital, seria a senhora que se encontra a meu lado, o maior tesouro que lá encontrei. Só por essa razão, valeu a pena ter sido para lá ”desterrado”. Mas sermos forçados a abandonar a nossa Terra é um dos pontos negros com que nos debatemos, o outro, bem mais negro e trágico, será a nossa partida involuntária para uma guerra, que sentimos não ser nossa, nem nos pertencerá.
      Não posso mencionar tudo, o que realmente me assombra a alma, porque correrei o risco de ser incompreendido pela insensibilidade de algumas pessoas e ser castigado, mas que maior castigo me poderão “eles” infligir, para além daquele a que já me condenaram…? Vou ser “desterrado” e obrigado a passar mais de dois anos a combater na mata, em Moçambique... e deixarei a Terra e a minha família, que muito amo. Dentro de poucos meses, entre muitas, nascerá uma criança, que é meu filho, e eu interrogo-me, vezes sem conta, se um dia a poderei vir a conhecer, mas não encontro resposta e acrescento, que é dramático e triste saber que me vão juntar a centenas de homens, no porão dum navio, que não terá condições dignas de albergar um ser humano, para me despejarem depois num País, em guerra, a milhares de quilómetros de distância, com a incógnita de não saber se voltarei a pisar solo Lusitano…
      Bem, creio agora, que chega de retórica, da minha parte, porque a que acabei de usar não será propriamente das mais agradáveis de se ouvir, no entanto, sou sensível e estou convicto que as verdades nunca são demais, serem ditas, nem ouvidas, até porque, e vendo bem, calculo que não haverá uma única família, no nosso infeliz País, que não tenha um dos seus elementos envolvido numa, ou em ambas as situações que acabei de mencionar. O espectáculo vai prosseguir, sem laivos de tristeza. Comunico que a alma do nosso Povo venceu mais uma vez, porque tanto a noite, Amália Maria e a Lua, aqui em Monsaraz, foram as inspiradoras de mais uma letra, que dedicarei à minha companheira e aos sentimentos mais profundos, que nos envolvem a ambos, que se caracterizam no amor e no fado.
      Embalado por ecos da planície, que chegavam ao Castelo, como espíritos da terra, Raul foi escutado com muita atenção, e em silêncio, porque as pessoas que ali se haviam deslocado, para o ouvirem cantar, concordaram, em absoluto, com o que ele tinha dito, aliás, ele apenas tinha dado voz a sentimentos que lhe ensombravam a alma, mas receavam proferi-las em público, pela segurança das suas integridades física e moral. A PIDE, até nas paredes tinha aliados, que denunciariam qualquer honrado cidadão, por menos do que ele havia referido, e levavam-no à prisão e à tortura, se assim o entendessem, além disso, gostavam da presença cativante de Raul e de o terem ouvido falar, porque o achavam mais solto que quando ele vendia “caféi, macarrão, entre outros géneros”, na Loja do senhor António. Afinal, a mudança, da sua Terra, para Lisboa e a companhia de Amália Maria, haviam frutificado, sendo benéficas para a construção da sua estrutura mental e cultural. Ele tinha deixado de ser o rapazinho imberbe e inculto que eles haviam conhecido outrora, e fora, também, graças ao esforço que ele havia despendido, para se tornar um indivíduo detentor de maior número de conhecimentos, que quando havia estado empregado, em Reguengos.
      Amália Maria sorriu, depois da forte emoção, por que tinha passado, relacionada com o amuo de Raul. Ela fora apanhada de surpresa, pelo actual estado de espírito do seu companheiro e acreditou, como alguém já lhe tinha revelado, que a envolvência com a fragrância da Terra Alentejana, costuma produzir magia, a magia que se alia à fina sensibilidade de alguns indivíduos, ou à inconstância do seu carácter, que despertou momentos de grande inspiração, a Raul, ali em Monsaraz, e o levaram a compor a letra dum novo fado, em poucos minutos. Sob o olhar circunspecto da sua companheira, Raul fez um sinal aos músicos para que o acompanhassem, com os seus instrumentos musicais e cantou, para satisfação dos espectadores: “Se ser fadista é pecado/E minha existência destrói,/Entreguei a alma ao fado, Espero que Deus me perdoe./É loucura um grande amor,/Como loucura é o fado,/Serei o maior pecador/Se ser fadista é pecado./Este fado que me encanta/É sentimento que dói,/Quando me sai da garganta,/E minha existência destrói./Vaidoso como ninguém,/Faz-se sempre bem amado,/P’ra que me amem também,/entreguei a alma ao fado./Se é parte do meu viver/E a minha sina constrói/Por ao fado tanto querer/Espero que Deus me perdoe”.
      Sob a dádiva de calorosos aplausos, que encontraram eco nas ameias do Castelo, Amália Maria, abraçou-o e proferiu, amantíssima:
      - Deus, não terá de te perdoar, em nada, aliás, Deus vai-te recompensar, pelo que tens feito, por divulgares e enobreceres o fado, o próprio fado estará, com toda a certeza, reconhecido pelo que tens feito por ele, para que seja feita justiça aos seus atributos. Em seu nome, eu te agradeço.
       - Não tenho assim tanta certeza, sobre o que acabas-te de dizer, porque o fado é destino, que é descrito como fadário, entre as várias definições que lhe fazem. Quem sabe se o fado, para me envolver com o seu destino, não me vai arrastar para o seu fadário, um fadário de sofrimento? As minhas perspectivas de futuro não são de bons augúrios... – referiu Raul, como se um “sininho” o despertasse para prováveis consequências, no seu futuro.
      - Não deves ser tão pessimista, Raul, porque o fado, o nosso destino, vai proteger-nos, como um bom amigo, que nos estima e a quem nós muito estimamos. Tenho quase a certeza que daqui a pouco mais de dois anos vamos estar neste mesmo local, a cantar, para estas pessoas, num concerto mais caloroso que este e com o nosso filho a escutar-nos, e a pendurar-se no meu vestido, como o mais maravilhoso espectador.
      - Que o destino se cumpra como o auguras, por que eu não tenho tanta certeza, provavelmente devido ao momento difícil que estou a atravessar. Pressinto que, para nós, nem tudo de bom vai acontecer no futuro, mas o meu estado de espírito, provavelmente, visiona uma irrealidade, sem consistência.

      À distância, indiferente a ressentimentos e à voz dos homens, no sossego da planície, o Rio Guadiana também cumpria o seu eterno fadário: “ser espanhol por nascimento e obrigado a percorrer e a irrigar terras de Portugal”.


Fotografia de Monsaraz: Luis Lobo Henriques 

 (08.10.2015)