quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Crónicas do Alto da Vila | por Manuel Manços | 01.11.2017

      Nunca será demais referir o que foi, anos antes,  a injusta e grotesca “Guerra no Ultramar”, nem ela poderá ser esquecida, enquanto houver um ex-combatente vivo, principalmente, pelo que devemos à memória dos mortos, de estropiados (gente a quem desfizeram a vida de um momento para o outro) e de todos aqueles que lá fomos deixar um bocado da “nossa melhor juventude”, nos melhores anos das nossas vidas e para quê... passados mais de quarenta anos os frutos são bem visíveis. Muito poderia revelar sobre o que vi e vivi, durante vinte meses, mas essas revelações encontram-se escritas nas páginas de dois livros que redigi. No entanto eu tive sorte, porque encontrei pessoas da minha Terra a residir na cidade de Nampula e me trataram como se fosse seu filho, durante o tempo que lá estive. Todas as guerras são injustas e criminosas, e transportam muita gente nas “enxurradas do crime” e em “situações humanas” teriam um comportamento, dito normal.
      Decidi homenagear pessoas injustiçadas e divulgar uma pequena ficção, baseada em factos verídicos, relacionados com a situação de crianças “mulatas”, filhas de africanas e de soldados portugueses, que viviam maritalmente enquanto lá se encontravam, mas quando regressavam à Metrópole deixavam-nas abandonadas, como se o seu sangue não lhes corresse na veias.

      Raul, havia terminado a sua participação, como cantor, no naipe de tenores,  num concerto de Música Coral, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa. Esperava junto da respectiva paragem, um autocarro, que o transportasse ao Terreiro do Paço e, distraído, com o olhar distante, observava os carros e as pessoas que passavam, e quase se atropelavam, pelo facto de ser quase noite e pela pressa que tinham em chegar às suas residências. Depois de alguns minutos à espera, chegou um autocarro, o nº 45, com destino ao Cais do Sodré. Do “novelo” de passageiros que se apearam, destacou-se um jovem mulato muito novo, ainda, e com boa figura, Raul poderia até dizer que ele era um jovem bonito, e a miscelânea de traços, no seu rosto, faziam-lhe recordar não sabia quem, e ele conhecia, que o fez estremecer pela empatia que se estabeleceu entre ambos. A fisionomia que o rapaz apresentava sensibilizou-o, e criou-lhe mau estar e desconforto, por se sentir atraído pela esbelta figura dum homem jovem, que ele não conhecia, e no entanto dava-lhe a  impressão que, ou já o vira algures, ou se parecia e muito, com alguém das suas amizades. Instintivamente pressentiu que a sua figura também impressionava o outro que, no entanto, preso aos seus olhos não deixou de caminhar na sua direcção para perguntar:

       - O senhor importa-se de me indicar onde fica a Cidade Universitária? Pela descrição que me fizeram, penso que estarei próximo das suas intalações...
      Raul deu a informação de que ele precisava, com voz embargada, sem compreender o fenómeno que se passava consigo, naquele momento, de sensibilizado que estava. O outro continuou, sorrindo e com amabilidade na voz referiu:
      - Agradeço a sua informação, porque não conheço Lisboa. Acabei de chegar de África, venho colaborar num congresso, que se realizará amanhã na Aula Magna... mas desculpe, a minha pergunta, que poderá parecer impertinente e eu não o quero incomodar:
      - Não nos encontrámos já...? Creio que a sua cara não me é estranha. Parece, pela sua reacção, que o senhor também me conhece. Esteve alguma vez em África, mais propriamente, em Moçambique...?
      - Sim, já estive em África, mais propriamente no norte de Moçambique, onde não vou... vai para mais de trinta anos. Cumpri lá o serviço militar, obrigatório. Se nunca veio a Portugal é impossível que nos tenhamos visto já e encontrado alguma vez, ou que nos conheçamos, dada a sua juventude. Quando de lá saí, você provavelmente ainda não teria nascido, ou seria uma criança de poucos meses, ou anos. Como sabe, há pessoas muito parecidas, mas o mais estranho é que estejamos ambos com a sensação de já nos termos visto, alguma vez...
      Raul, pressentindo que algo de invulgar se passava, esteve quase a comentar que precisamente, no norte de Moçambique, tinha abandonado dois filhos, provavelmente com idades aproximadas às que ele parentava, mas coibiu-se de o fazer. Além da vergonha que provocam, há segredos que não se devem divulgar nunca, pelos danos que podem causar. Mais uma vez os seus medos e a sua cobardia tinham vencido.
      - Sabe, sou filho duma africana e do “vento que atravessou as palmeiras, num dia de muito sol”. Minha mãe dava-me essa resposta quando, sentado à porta da nossa humilde palhota, em criança, lhe perguntava o nome de meu pai.
      -  Mas não chegou a conhecer o nome de seu pai? Perguntou Raul, curioso com ambas as pernas a querem  falhar.
      - Não senhor. Apenas sei que sou filho dum tropa, português, que decidiu fugir para a Metrópole, antes da independência de Moçambique..., mas tive sorte. Um amigo de meu pai voltou a Nampula e quando um dia me viu nas ruas da cidade andrajoso e com fome, levou-me para sua casa, a mim e a meu irmão, depois de se ter inteirado da nossa identidade, saciou-nos a fome e mandou-nos tirar um curso Superior.
      - E como se chama, ou chamava esse amigo de seu pai, pode ser que eu o conheça. Estive lá, é bem provável que eu o conheça?
      - É um alentejano de muito bom coração, chama-se Brites Rosado. É de Reguengos, próximo da aldeia onde o meu pai nasceu e cresceu, conhece-o?
      - Não, nunca ouvi falar nesse nome – respondeu Raul, mantendo-se de pé, sem saber como, nem porquê – e seu irmão, está bem, que curso fez ele?

      - O meu irmão está bem! Tem dois meninos, com eu tenho e é professor na cidade de Nampula e não desiste de procurar, por todos os lados, o nosso pai, uma vez que nossa mãe se nega a faze-lo – respondeu o jovem africano, curioso pela pergunta que o outro lhe havia feito.
      Sensibilizado, Raul comentou para os seus botões: Até nesse aspecto saem a mim, “só geramos rapazes...”
      De madrugada, num sonho calmo, que lhe traria as melhores recordações de outros tempos, Raul “amou a negra” com quem tinha vivido, em Moçambique, vendo-se depois rodeado pelos filhos, de ambos. Brincava e corria com eles pela mata africana, depois o sonho nublava-se e via-se a abraçar o rapaz que havia encontrado na tarde do dia anterior para o beijar, com ternura, como se ele lhe pertencesse, e lhe provocou uma sensação de amor e de desconforto, acabando por concordar, na escuridão da noite, sem sono, que nada acontece por acaso, na existência do ser humano, havendo mistérios difíceis de explicar, ou não... Além disso Brites Rosado estava metido no assunto.

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
01.11.2017 
(foto: António Caeiro)

domingo, 1 de outubro de 2017

Crónicas do Alto da Vila | por Luís Filipe Marcão | 01.10.2017

O HÁLITO DO RIO

O hálito do rio é mais suave, o cheiro menos intenso, menos húmido, a sua voz menos marulhada e grossa que a do mar. As ondas quase não se notam e chegam sem pressa, a desfazer-se aos nossos pés como que a pedir aconchego.
 O sol prepara-se para se esconder, lá atrás da ossatura da serra de Portel e deixa no silêncio líquido do Alqueva, uma poalha incandescente, brilhante, a formar um caminho de luz. Consulta-se o relógio. A tarde avança, faz estender as sombras dos toldos de colmo, em fatias enormes que ocupam desprevenidas e sem autorização as toalhas estendidas da vizinhança. O nadador-salvador saiu, há pouco mais de dez minutos, deitando um último olhar à beira da água, onde algumas crianças chapinham numa algazarra e fogem de baleias e jacarés, figuras que inventaram, num prodigioso jogo de alucinações.
 Ao largo, um rebanho pasta pachorrento. O som dos chocalhos forma uma melopeia cadenciada que se propaga no ar e chega até nós, como o acompanhamento natural de um cante de muitos séculos. Corre uma aragem aromatizada de giestas, do restolho perfumado do fim do verão.
 No restaurante, o empregado acendeu umas velas que colocou sobre as mesas num convite  a sugerir jantares românticos. Um barco inchado de gente chega à marina. Os passos ecoam ligeiros pelo passadiço de madeira. Lá em cima o castelo ilumina-se com uma luz amarela e num desmaio propositado o sol esconde-se para lá do cerro.
 A um canto da esplanada, alguém ficou como eu, de olhar parado a fixar a ilha em frente, remoendo pensamentos, desfiando saudades, o livro abandonado e aberto sobre a mesa.
 Vim despedir-me da praia. Do azul, deste areal acastanhado e desta mancha verde colocada logo atrás. Das bolas de Berlim e dos gelados de cone. Dos pinchos e tapas que nuestros hermanos trazem para a merenda, do sotaque de francês arranhado com que alguns emigrantes nos brindam.
 Algumas décadas atrás, tudo isto era privado, como se o rio pertencesse a alguém. Como se aquele senhor, dono de tantas terras, fosse também senhor das águas. Nem pescar se podia!
Agora não calculam como aprecio esta liberdade de risos e traquinices à solta, das gargalhadas fáceis dos miúdos e dos seus mergulhos de chapão, no ventre aprisionado do rio.

 Se fosse possível, compraria uma onda gigante da Nazaré e bem dividida em muitas parcelas, viria despejá-la, na próxima época, aqui na praia fluvial de Monsaraz. 


CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
01.10.2017 
(fotos: António Caeiro)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Suástica num Monte Alentejano

Um dos Jogos de Tabuleiro Ancestrais é o Alquerque do 3 ou Jogo do Homem, o Jogo do Galo que todos conhecemos.
Alguns destes tabuleiros aparecem na posição vertical, por vezes traçados no estuque.
Recentemente foram encontrados paralelos interessantes em artefactos arqueológicos da antiguidade.
Este tabuleiro também é uma representação de um símbolo milenar, a Suástica.
A Suástica é um símbolo solar, segundo alguns autores pode também representar um Deus.
Pela Raia Alentejana parece ter sido um símbolo de protecção e sorte usado até aos nossos dias.
Apresentamos uma destas Suásticas quadrangulares que protege um forno de um monte abandonado perto de Monsaraz.


A Raia não para de nos surpreender.







texto e imagens: Luís Lobato Faria

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

CURIOSIDADES E SEGREDOS DE MONSARAZ: Vértice Geodésico

Um vértice geodésico (popularmente chamado "talefe" em Portugal, e "Pinoco" no Norte de Portugal) é um sinal que indica uma posição cartográfica exacta e que forma parte de uma rede de triângulos com outros vértices geodésicos. São escolhidos sítios altos e isolados com linha de visão para outros vértices.

A rede geodésica portuguesa é formada por vértices geodésicos que se dividem em três ordens de importância:
1ª Ordem - pirâmides distando 30 a 60 km
2ª Ordem - cilindro + cone listados distando 20 a 30 km
3ª Ordem - cilindro + cone distando 5 a 10 km




                                                               texto e imagem: internet