quinta-feira, 17 de maio de 2018

Crónicas do Alto da Vila | por Manuel Manços Assunção Pedro | 16.05.2018


      Ter a sorte em ser oriundo duma aldeia, onde as suas chaminés despontam, como pináculos na aridez da planície alentejana; defender com garra as suas origens; admitir com satisfação que o tratem por “chaparro” e afirmar, sem embargos de voz, que sente orgulho em pertencer ao clã alentejano, entre outras características, não será para todos, porque contém muita responsabilidade agregada e tem, também, muito que se lhe diga... no entanto, quem assim proceder, sujeita-se a bastos comentários de índole, nem sempre agradáveis, de escutar e algumas vezes, engendrados e ditos por “irmãos”, também eles com origem na “Pátria Alentejana”.

      O tipo de comentários que refiro, acredito que, somente, terão origem na ignorância, má fé e na “dor de corno”, ou seja, na inveja, porque gente do referido calibre, nasce e espalha-se como a “grama”, residindo em todas as raças e em todas as galáxias. Alguns, somente, porque vivem loucos, abraçados a um “canudo”, sabe Deus como o teriam adquirido, julgam-se os mais bafejados pela sabedoria e pela sorte, mas dada a sua auto-confiança, em demasia, costumam ser os que mais fracassam. Em muitos aspectos, também lhes poderei chamar os “empata...”, que não fazem, não querem fazer e têm raiva que os outros façam...

       O Alentejo sempre sobressaiu por ser uma região de características aprasíveis, muito próprias, no entanto, contrariando o que referi, lá deixei a minha aldeia, em pleno “campo aberto”, e os conhecimentos que eu trouxe, eram inferiores (em quantidade e em qualidade) aos que hoje possuo, mas com sacrifício adquiri. Não tinha ainda dezoito anos, decidi partir, como tantos outros vieram, mas sou sincero, estranhei muito por ser forçado a ter de deixar os meus pais e o ambiente saudavel, desafogado e bom que me permitia mover livremente, e o Alentejo proporcionava, para me ir encafuar entre as quatro paredes duma Repartição Publica, movido por iluzões, sonhos e ambições de juventude, que me obrigaram a enveredar pelo referido caminho. Os “sonhos bons”, que me povoavam a memória, de dia e de noite, quase  se transformaram em tragédia e tornou-se demasiado penoso e evidente, o facto de eu ter de abandonar a minha aldeia, que para além de casas térreas, de um só piso, encavalitadas nas ruas estreitas pouco mais tinha para me dar, no entanto “conservava” a taberna do meu avô, que foi uma escola para mim, onde eu me “deliciava” servindo vinho, às rodadas, ao balcão e cantava as “nossas modas” com os adultos. Reguengos e as suas gentes também vieram comigo, na bagagem da minha lembrança, como um postal multicolor de amizade.

     Nada me fazia parar e eu tinha consciência que iria dar um passo muito arriscado. Assim, de noite, a ver brilhar as estrelas por entre as telhas, aconselhava-me com a minha figueira, que ao lado tapava metade do telhado da despensa onde eu dormia e dizia: “Vai ao teu destino e vai cantar que é o que te levará a fazer as maiores maluquices!”.

        E o dia aprasado chegou esbaforido e eu parti no comboío, que passava no apeadeiro da minha terra, onde familiares meus se despediram de mim, de lágrima no olho, enquanto eu me queria mostrar alegre, mas por dentro estava mais negro que o chapeu que o meu pai usava na cabeça. Creio que o êxodo, não foi tão penoso e sufocante, para os hebreus.

      Passados que são estes anos, concluo que, de certa forma, valeu a pena porque, lamentavelmente, se tivesse ficado “retido” na minha Terra, não desenvolveria funções, nem tarefas, que desempenho, actualmente, na “grande cidade”, mas foi somente à custa de muito sofrimento psicológico, repito, e de muita saudade, do “bom” que deixei no Alentejo, de que eram, ainda, testemunhas bocados da minha infânca, que haviam sobrado.

      Levantar de madrugada, correr para o emprego, por entre um ror de gente e caras estranhas, e à noite enveredar pelo caminho inverso, e depois jantar e a seguir ir a pé e a correr para um Externato, onde “desenvolvia capacidades intelectuais, através dos livros que ia adquirindo, para o efeito”, e mais uma vez tiveram de ser os meus pais a ajudar,  porque, o vencimento de funcionário público, não chegava para comprar e “dar milho às gaivotas, no Tejo” e não havia ajudas para minguém, mas devia ter havido, porque manter um emprego de dia e ter de ir estudar à noite, tornou-se sempre  dispendioso, em todos os aspectos, físicos, psicológicos e monetários.

     Entre os muitos entraves com que deparei, foi a nível linguístico, mas comecei a verificar que o vocabulário e a forma de me exprimir chamavam a atenção de cidadãos que decidiam depois entabular conversas sobre o Alentejo e suas características e enquanto falavamos e eu “me distraía” do local onde me encontrava faziam-me sentir na minha própria Terra e com a minha gente, a pontos de alguém me dizer, em uma ocasião, que eu teria de elaborar um dicionário de “Alentejanez”, para que pudessemos dialogar, mas não chegou a ser preciso.

      À medida que o tempo passava, e eu me ia adaptando ao novo ambiente, fazendo novas amizades, algumas ganharam a minha confiança e numa forma carinhosa, em vez do meu próprio nome “desataram” a tratar-me por “chaparro”, que em vez de aborrecer, fazia crescer o meu orgulho de alentejano e recordar a árvore preciosa que sempre será um icone no grande orgulho alentejano, porque dava e continua a dar sombra a quem tanto precisa de se abrigar, quer de verão, quer no Inverno. Para além das “boletas” que eram muitas vezes a base da alimentação dos suinos, mas que eu também gostava de “trincar”, cruas ou assadas. Muitas eram e continuam a ser ainda melhores e mais saborosas que as castanhas.

      Claro que, na cidade,  também havia aqueles que se esforçavam para aborrecerem  o alentejano, como falavam mal dos alentejanos, em geral, enquanto engendravam anedotas, na maioria das vezes sem graça, e contadas para nos “rebaixar”, mas normalmente, quem ficava a perder eram sempre eles porque eu, conhecedor dos costumes das suas origens também os  “atacava”.

Como era bom observador e tive experiência nos campos do Alentejo, ainda gosto de escrever sobre o que constatei e passei na minha preciosa juventude, na “Pátria alentejana” e sobre as suas gentes. E, claro, para ser sincero e escrever as verdades continuo a descrever o que vi e vivi, havendo pessoas que lêem e relevam o que escrevo porque sem embargos continuo a relevar e a enaltecer factos e ocorrências que “outros esconderiam”, por vergonha, porque nascer e ser criado na pobreza, que o campo sempre ofereceu nunca foi facil, com o bem precioso que é a liberdade. Infelizmente, pressinto que, para alguns, falarem sobre as lides do campo sentem que será o mesmo que se rebaixarem perante a pobreza em que um dia terão vivido, como aquele alentejano que veio à cidade e quando regressou à sua terra já não sabia o que era um ancinho. Mas quando o pisou e levou com o cabo na cabeça soube dizer áh, incinho dum cabrão, que mos ias partindo...






CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
16.05.2018 - a partir de texto de 2017
(fotografia: António Caeiro)
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