sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.03.2015


Cá estou eu no ponto mais alto do castelo, cronista de trapézio, equilibrista de paisagens, ágil acrobata aos saltos pela história.

 Fixo o olhar no horizonte que se dissolve entre o castanho da terra e o infinito azulado do céu. Respiro o silêncio, o aroma das estevas, o sabor da terra neste poema de pedra que dá pelo nome de Monsaraz.

 Da torre de menagem, lugar sublime, altaneiro, avisto ao longe, lá para os lados do Outeiro, um menir que se ergue erecto a (emprenhar o infinito). No nascente, antigos baldios da machoa, surge Azovel e seus guerreiros Almorávidas montados em corcéis árabes prontos a tomar o burgo. Nos jardins passeia-se Alandra formosa e sedutora. Mais à frente e eis D. Nuno, ajoelhado em oração, no sítio onde se haveria de erguer alguns séculos depois o convento da Orada com seus Agostinhos descalços. Cerro os olhos, abro os olhos e à minha frente surge o juiz de fora, autoritário, indicando o monte da forca ao condenado por heresias. Se escutar com mais atenção quase consigo ouvir as vozes de mando dos antigos alcaides. D. Tomaz Gomes Martins, D. João de Aboim, D. Martins Botelho e outros cujos passos ressoam na mesma calçada romana, disposta em cutelo, onde agora passeamos.

 Fecho os olhos. Outro salto mágico. O Guadiana apertado com o garrote de Alqueva inchou, inchou espreguiçou-se e descobriu novas margens. Deste parapeito vislumbra-se em toda a sua plenitude a imensidão de um mar tranquilo, e onde antes era terra e suor, palco de labores e lutas antigas com jornadas de sol a sol, perspectiva-se neste momento, outro tempo, com os antigos manageiros e feitores transformados em marujos e arrais e as velhas eiras onde se debulhava o trigo, em apetecíveis marinas onde encalham os sonhos do futuro.

Pois é, tudo se transforma. A água engoliu de vez a fábrica das celuloses e o autocarro azul carregado de operários fabris com sonhos ao fim do mês, já não desce a encosta.
A aldeia da Luz afundou-se e só as recordações teimam em vir ao de cima entristecendo quem lá viveu. Os eternos problemas do Alentejo ainda persistem. A desertificação, o abandono, as gritantes assimetrias sociais, o desemprego a atar as mãos de quem quer e merece trabalhar e muitas vezes é convidado ou obrigado a encher o taleigo de desespero para partir de mal andar rumo às Suíças ou às Américas.





 Para lá destas palavra, o sol ardente continuará a nascer e a esconder-se no poente das nossas vidas, sempre com o Alentejo escrito na cal, sepultado na alma, repartido nas açordas, festejado no cante que é só nosso e da humanidade. 

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.03.2015 

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