quarta-feira, 1 de abril de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Rui Dias José)_01.04.2015


À vista de Alqueva,
Com lembranças do Guadiana…


De passagem ou destino procurado! Terras de Monsaraz, com recordações do Guadiana, que ali já foi rio… agora caudal que engrossa águas de Alqueva.
Mudou a paisagem, ganhou o Turismo. Mas a agricultura, anseio de Alentejo, tarda. Alguns desacreditam se irá chegar, para além dos vinhedos e olivais.



Do Além Tejo só tenho meia da ascendência. A outra veio bem do Norte… Mas o vício andarilho de trabalho e lazer trouxe-me com frequência a estas terras. Às vezes só etapa de viagem até Olivença, Villanueva del Fresno, Mourão, Amareleja, Barrancos, Encinasola… Outras, em busca de paisagens, vistas e vinhos de Monsaraz e Reguengos.
Do Olival da Pega tenho memórias dos anos 80, na companhia do então presidente de Câmara Vítor Martelo e do Arq. João Rosado Correia em deambulações no âmbito de um programa da Antena 1, o Passeio das Virtudes. Mas havia de voltar outras vezes quando fui responsável pelo Feira Franca, também do canal principal da rádio pública.
Foi assim que me habituei às vozes do Coral ou descobri “Monsaraz Museu Aberto”. E, já nesses tempos, o Corval era paragem obrigatória para desvendar a arte que se esconde nos dedos de um oleiro ou nos traços de cor com que mãos de mulher sabem bordar o barro.
Como era diversa a vista dos horizontes em redor das muralhas… Alqueva permanecia sonho adiado e ficava aquela imensa visão de campos, pontuados aqui ou ali por uma ou outra aldeia e mais umas quantas casas dispersas. O Castelo de Mourão, logo além… à distância de um olhar, levantado do casario à volta.
Eram fins de tarde fruição de cores e cheiros que não apetecia interromper até que o sol se fosse. Dos sons, quase só recordo os pássaros a quebrarem silêncios. Uma calma que dava para ouvir os próprios passos sobre antiga calçada de pedra e história.
Ir a Monsaraz era reencontrar serenidade, viajar no tempo, sonhar-lhe outras vidas naqueles arcos e ruelas. E parar aqui ao ali para um cumprimento feito aceno de cabeça e saudação de voz.
Obrigatória sempre a passagem pela “holandesa das mantas” e a procura de um qualquer espaço com gente para dois dedos de prosa.
Tenho para mim que, se o amanhecer podia ser de deslumbramento, o ocaso era esmagador com a multiplicação das sombras e o surgimento, ali ou mais além, das luminárias que pontuavam o horizonte e ensinavam a ocupação do território à volta.
A primeira vez que por lá pernoitei tive a felicidade de um espaço lindíssimo que me disseram pertencer à Universidade de Évora. Até hoje mantenho-me agradecido por tal hospitalidade e deferência. Ficaram gravadas as imagens das salas, das paredes, do pátio interior…
Haveria, anos depois, de experimentar o rigor monástico do Convento da Orada. Guardo a visão das madeiras de altar na recepção, os corredores transformados em galeria de arte, os quartos acolhedores, de paredes grossíssimas e janelas comedidas para vislumbrar a luz do Alentejo.

Não acompanhei a subida das águas

Como andei ocupado (distraído?) com outras incursões pelo país - fora dos grandes centros, de Valença à ilha do Corvo – não acompanhei a subida das águas da barragem nem a progressiva mutação da paisagem que ela consigo arrastou. Imagine-se a surpresa quando, subindo a Monsaraz, dei com aquele oceano de água em redor do velho burgo entre muralhas.
Agora com restaurantes e esplanada de ver paisagem em camarote. E um branco de Monsaraz, sorvido devagar, enquanto olhos e alma sugam vistas e horizontes. Tentando, das profundezas da memória, retirar imagens que ajudassem a identificar o que à minha frente surgia: tão diferente daquilo que era quando lá tinha estado de outras vezes.
Mas estranhei logo (ainda hoje estranho) a falta de rostos para saudar e cumprimentar. Como se o milagre da multiplicação da água tivesse o reverso da subtração da gente. Claro, ao fim-de-semana, um corrupio de linguarejares bárbaros, de cliques de máquinas fotográficas, de instrumentos dos mais diversos para fixar saudades em vídeo. Mas esses já não me dão a boas tardes nem ficam à espera que eu lhes responda…

Nostalgia? Não! Essa guardo-a toda para a memória dos homens que me ganharam para o sonho e para a premência de Alqueva. Lembro uma ida a Mourão, com um grupo de jornalistas meus convidados, e uma paragem obrigatória(!) no Alquevinha. Para comunhão de um sonho de Alentejo que aprendesse a arte e a tecnologia da água feitas fertilidade, riqueza, crescimento e fixação das suas gentes. Sem precisar do enxurro das casinhas de férias...
Por onde andarão agora esses sonhos de agricultura com que me seduziram e apaixonaram? Não é que não goste de flutuar águas de Alqueva. Bem pelo contrário! Mas fica-me um amargo sabor a pouco.

E os meus pensamentos quase regressam ao dia em que ia ficando atolado no meio do Guadiana, de Juromenha para Vila Real, já nas bandas de Olivença. Eu sabia perfeitamente que a Renault 4 não tinha virtudes de navegação, mas o caudal daquele Verão estava tão baixo que me deu para arriscar. E cheguei ao lado de lá! A tempo de descobrir que o lugarejo vivia de uma imensa exploração hortofrutícola. Semelhante a uma que havia do lado português. Só que - a das nossas bandas, ao tempo - era de uns holandeses… e a defronte era mesmo de espanhóis.

Fico por aqui. Já estou a reincidir nas nostalgias da água!

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Rui Dias José
01.04.2015 
Fotos: Antunes Amor 

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