segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.06.2015


   Escolho o caminho de S. Pedro, o maior centro oleiro, para voltar a Monsaraz e às crónicas do Alto da Vila, mas sem nada previsto quedo-me pelo sopé onde estendido como preguiçoso lagarto ao sol, encontro o Telheiro e a minha velha escola que um benemérito da terra, de nome Caeiro, percebendo a importância do ensino, mandou construir em tempos idos.

 Edifício simples de arquitetura semelhante a muitos outros do estado novo. Pequeno átrio de entrada a dar acesso a uma única sala que reunia as quatro classes. Cá fora três arcos a sustentar um alpendre que servia de abrigo aos desacatos do tempo e um terreno murado que durante o recreio se transformava em torneios de pião, do berlinde, jogo do eixo ou do funcho. Todas as brincadeiras tinham um calendário preciso que era aceite sem contestação.

Na sala de aula o mobiliário rudimentar precisava de reforma. A secretária de pinho da professora, com duas gavetas onde se escondia uma palmatória que nunca vimos, mas que a D. Conceição, bondosa e paciente assegurava existir. O quadro negro, três filas de carteiras de dois lugares onde se anichavam separadamente as raparigas e os rapazes. Ao lado da lareira que poucas vezes servia, um armário que continha alguns livros, o boião da tinta permanente que haveria de encher os pequenos tinteiros  e um saco de leite em pó que em certas ocasiões era distribuído pela turma. Creio que no Natal e na Páscoa.

Ainda hoje recordo aquela bola que se formava, pegava ao céu da boca e ia derretendo lentamente, deixando um sabor que forrava as paredes do estômago com sumarenta quietude. Na parede dois mapas, o do continente e o das colónias, terras de costumes bárbaros onde o Manuel que era o sapateiro da aldeia já quase mestre, morreu com um tiro na barriga. Gastos do uso, os ditos, meio desfiados mais pareciam pergaminhos, e a ladear o quadro de ardósia as figuras imponentes do regime: O almirante de fato igual ao homem dos gelados a que não faltava o boné branco e o professor Salazar, muito sisudo, de olho na turma, não fosse haver alguma sublevação! No meio, um Cristo crucificado e tornado escuro pelo óxido do tempo.

 Estaciono o carro à sombra do posto da GNR e bem guardado, fico ali com o silêncio a pesar-me nos ombros, o dia a queimar-me em palavras … as recordações a empapar-me a memória enquanto o sino de Monsaraz bate as duas da tarde.

 A minha escola! A minha mas também a do Zé António, do Evaristo, do Chico, do Inácio, da Paula, da Catarina, da Suzete, da Benvinda e muitos outros que ali aprenderam, trocaram saberes, partilharam momentos e fizeram adormecer a manhã soletrando num som monocórdico a cantilena morna da tabuada. Ali aprendemos de cor e salteado os rios e afluentes, as serras e os mares e de dedo indicador espetado sobre o mapa, viajámos por comboios imaginários.

 Um dia a escola fechou, como tantas outras por esse país fora.

 Era fácil esgrimir argumentos falaciosos. Fazer outras contas que não as da aritmética simples que aprendemos. Outros jogos que não os do antigo pátio murado.


 Vieram senhores ilustres falar de progresso, de tecnologias, de rácios que ninguém percebia e o último miúdo vestido de bibe aos quadradinhos azuis, deixou rolar duas lágrimas, (como o tal menino do quadro das feiras que toda a gente pendurava na parede da sala), antes de entrar para o autocarro que o iria levar para outra escola mais distante para satisfazer os desejos economicistas dos senhores bem falantes que usam fato escuro e sorriso para todas as ocasiões.




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.06.2015
(fotografia da CMRM)

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