terça-feira, 12 de julho de 2016

OS 11 ANOS DO BLOG “MONSARAZ em fotos”


12 de Julho de 2005, foi a data do primeiro post no blog “Monsaraz”,  criado por António Caeiro, para divulgar e homenagear a sua terra de adopção - A Vila de Monsaraz, ou como diria José Cutileiro, em “Ricos e Pobres no Alentejo” a “Vila Velha”.
Desde então,  António Caeiro, foi aumentando este espaço, enriqueceu-o com as suas próprias fotografias, e depois com as de outros fotógrafos, como foi o caso de David Ramalho e de João Fructuosa; esse enriquecimento foi sendo sempre melhorado com a criação de várias “rubricas”, das quais se destacam: “Outras artes”, “Outros Tempos”, “Monsaraz por outros Olhos”, “Aldrabas e Batentes de Monsaraz”, “Crónicas do Alto da Vila”; foram publicados contos de autores alentejanos, amantes, também eles, da “Vila Velha” – MONSARAZ –

A magia de Monsaraz, captada “pela sua lente”, viria a dar origem à primeira incursão de António Caeiro, ao mundo da impressão, em formato de Livro, sendo editado com o selo da Mindaffair/almalusa.org, “O Silêncio das Pedras”, que inclui ao longo de cem páginas (com dimensão de 25X25cm), um conjunto de imagens captadas pelo autor, que foram separadas por dois temas: “Olhar Monsaraz” e “Outros Olhares”.

A escolha do tema “Olhar Monsaraz”, não foi ao acaso, porque contempla uma singela homenagem à bela Vila Medieval.
“O Silêncio das Pedras”, conta com um texto de introdução, elaborado pelo poeta, escritor e dramaturgo, Paulo José Miranda que refere, a dado passo: “De um ponto de vista fotográfico, de um ponto de vista de luz e seus registos, estas fotografias confrontam o azul com o resto.”

Com a colaboração dos fotógrafos amadores, já citados, e dos Poetas, Anabela Soares, Cecília Vilas Boas, Inês Valadas, Isabel Vieira, José Luís Outono, Jesuino Vieira, Manuel A. Belo Silva, Manuel Manços Assunção Pedro, Manuel Sérgio, Maria Antonieta Matos, Maria José Lascas Fernandes, Maria Pereira Gonçalves, Paula Cristina Costa e Rosa Guerreiro Dias, surgem mais dois livros, homenageando a Vila Velha: “POETIZAR MONSARAZ”. (Vol ‘s I e II).

Foi realizada a exposição de fotografia, “Monsaraz - entre o céu e a terra”, apresentada e inaugurada, em Lisboa, na Casa do Alentejo e na Igreja de Santiago,  em Monsaraz.

Três olhares… a mesma Vila!

Trata-se de um conjunto de imagens sobre Monsaraz, captadas pela lente de António Caeiro (Aldeia de Paio Pires), David Ramalho (Reguengos de Monsaraz) e João Fructuosa (Campinho).
António Caeiro, quer através da sua lente, quer como coordenador de trabalhos e livros de fotografia e de fotografia e poesia, pretende mostrar a Vila de Monsaraz  e fá-lo soberbamente.

Leva-nos a manifestar interesse e a querer conhecer o verdadeiro Alentejo.  Quando nos deslocamos a Monsaraz, percorremos as suas estradas, quase desertas, sentimos as suas planícies e montes onde, de vez em quando, podemos observar uma casa “salpicada”, na paisagem.

Ao chegarmos a Monsaraz, encontramos uma vila, muralhada, com poucas centenas de habitantes, de casas caiadas de branco e chão empedrado (do xisto de Monsaraz), pendurada num monte, de onde avistamos o maior lago artificial da Europa – O Alqueva – e  terras de Espanha, de onde tantas vezes nos chegava o inimigo, que logo nos obrigava a defender e a atacá-lo do alto do castelo da referida Vila.

António Caeiro, e seus convidados, através das suas lentes, ou palavras captam tudo aquilo que nos diz Francisco Martins Ramos, in TERRAS DO MEU ENCANTO  - MONSARAZ:
Chegados ao cimo da colina, montanha soberba à escala minúscula dos homens e que domina o mundo raso envolvente, quedamo-nos, silenciosos e reduzidos, frente à Porta da Vila, que iremos ultrapassar, curiosos e inseguros: entrar na vila é dar o primeiro passo na aventura da descoberta. Entramos; se é inverno, inebria-nos o cheiro alucinogénio do aroma das estevas a arder em lareiras escondidas; se é verão, acaricia-nos o bafo morno da brisa reflectida pelo xisto causticado de séculos e pela cal teimosamente indelével.”
“Fazemos o périplo da vila, encostados às muralhas, invadimos os quintais minúsculos, santuários da agricultura de jardim, imaginamos as delícias gastronómicas que o odor que se espalha pelas portas e chaminés nos provoca, inventamos miradouros na esquina de cada rua, imaginamos o rio, ribeira em tempo de verão, a correr mansa e exaurida, para lá do outeiro de São Gens. Espreguiçamos o olhar para as bandas da Extremadura espanhola, descobrimos no horizonte o “país dos sacaios”, voltamos à torre grande que vigia o cemitério, sítio bom para se repousar, onde a morte parece mais organizada que a vida.

Queremos voltar ao centro do mundo e deixamo-nos perder e embalar no labirinto de ruas e ruelas e nas teorias do imaginário urbano.” (FRANCISCO MARTINS RAMOS, 2006, in “BREVIÁRIO ALENTEJANO”, págs. 52 e 53.)

Obrigada António Caeiro pelo Blog e Facebook que criou e faz crescer, mostrando e divulgando a Mágica Vila de Monsaraz e que os mesmos se mantenham por mais 11 anos.

Texto:
Ana Maria Saraiva
12.JUL.2016

Fotografia:
António Caeiro
12.JUL.2005 (a primeira fotografia do Blog)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Presépio de Rua, em Monsaraz.



Presépio de rua com figuras de tamanho real, da autoria de Teresa Martins, disposto pelas várias ruas da vila medieval de Monsaraz

Fotografias do Presépio em 2014 AQUI


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

"Noite de Fados em Monsaraz", por Manuel Manços Assunção Pedro

      Sabedoras daquela tradição, tanto Amália Maria, como a mãe de Raul fizeram questão de oferecerem a fotografia do seu ente querido, à Senhora do Rosário, em São Pedro do Corval, para que Ela o protegesse e ele enfrentasse o perigo, com coragem na mata, em Moçambique.
      Em Monsaraz, “A Noite de Fados”, meses antes aprazada, efectuou-se num recinto, que em tempos recuados havia servido, como praça de armas, e no presente funcionava como arena, onde decorriam as touradas, principalmente durante as festas de verão, e noutros espectáculos diversificados, e encontrava-se localizada no interior das muralhas do seu castelo medieval. Provavelmente, por ser a sua última actuação, antes de seguir para África, Raul ficaria desatento e ansioso, sentiu até uma espécie de formigueiro a percorrer-lhe o corpo, e por pouco não contagiou, com os seus sintomas, a boa disposição de Amália Maria. No seu ar doce e calmo, a jovem viu-se na obrigação de lhe recordar que o êxito do espectáculo, ou do seu descalabro, dependeria do desempenho que ambos tivessem. Ela, nunca havia presenciado à sua estranha forma de agir, momentânea, desconhecia até a faceta mais derrotista que Raul decidira revelar, que o arrasava e ela sentiu-se magoada. Ali, naquele local, Raul revelou a sua faceta de indivíduo brusco e revoltado. Por reconhecer que a sua companheira tinha razão, respondeu-lhe grosseira e despropositadamente e amuou, a seguir, enquanto jurava que não actuaria, por falta de interesse e até de voz.
      Aflitos e receando pelo fiasco que o espectáculo pudesse vir a ter, tanto os pais de Raul, como os pais de Amália, decidiram chamá-lo para fora de olhares estranhos, e sem pressões, esforçaram-se por incutir algum juízo, no desequilíbrio, que a sua cabeça manifestava, fazendo-lhe ver que ele não poderia desistir de cantar, naquela noite, porque seria a última em que o poderia fazer, durante os tempos mais próximos, e em território Metropolitano, com o risco de arrastar pela lama, a sua, e a carreira da sua companheira, mas teimoso, ele insistiu que regressaria a casa de seus pais, porque cantar, era a última coisa lhe apetecia fazer, naqueles momentos de desespero, e para desalento de quem assistia ao desenrolar do seu triste estado patológico, fez uma tentativa para abandonar o castelo. No entanto, quando se dirigia para a saída, como se um raio trespassasse uma azinheira, seria acometido por uma crise de choro que o varou de alto a baixo, e lhe devolveu o alento e o equilíbrio psíquico, que dele se tinham afastado. Afinal, ele “havia passado a noite a lutar, em terras de África”, alagado em suores frios, e fora envolvido num pesadelo, que parecia nunca mais ter fim. Pensar que o obrigariam a abandonar Amália Maria e a seu filho, sem lhe darem, sequer, a felicidade de o vir a conhecer, tinham-no colocado num estado de loucura.
      Sentindo, depois, arrependimento, e o arrependimento mata, pela incoerência do seu anterior procedimento, abeirou-se da sua companheira com paixão, beijou-a, e pediu-lhe perdão, pela reacção negativa, com que a havia magoado. Por ter calculado a razão dos seus reais motivos Amália Maria, disse, apenas: “- A noite está linda, Raul…, vamos divertir o público, que nos espera lá fora, e oferecer-lhe os melhores fados, que integram os nossos repertórios. Lembra-te, meu amor, que temos que fazer desta, uma noite memorável, especialmente só para nós, como se ela fosse a única, a derradeira, para as nossas vidas, uma vez que o triste afastamento que nos impõem, durante um período de tempo tão longo, assim vai parecer. Vai em frente que, presentemente, nas nossas vidas não há, nem poderá haver lugar para arrependimentos. Esqueçamos, pois, o lado negativo do que se passou contigo e vivamos os melhores momentos em que estivermos juntos. Tento compreender a tua reacção, de há momentos, e sei que o amor e o desespero te cegaram, mas agora vamos, chega de retórica, que lá fora já esperam por nós e não podemos desiludir ninguém. 
      De mão dadas, sob forte emoção, resultante dos momentos dramáticos, que tinham vivido, momentos antes, e de vibrantes e calorosos aplausos, com que o público os brindaria, Raul e Amália Maria, dirigiram-se para um palco, que havia sido colocado propositadamente, para aquele grandioso evento, na arena do Castelo Medieval de Monsaraz. O palco, em redor, havia sido engalanado por folhas de palmeiras, entrelaçadas e unidas por cordas, que haviam sido revestidas de ervas verdes, que misturaram com flores, mas dispostas de forma a que os dois fadistas fossem vistos de todos os ângulos, sem obstruções, e ambos tivessem entrado numa moradia de deuses. No momento em que eles pisaram o recinto, onde se realizaria o espectáculo, foi lançada uma salva de foguetes, com o intuito de os homenagear, porque eles foram recebidos como personagens pertencentes à realeza, não fosse a sua personalidade, concebida pela modéstia e ter-se-iam sentido seres fora do comum, dos mortais, naquele ambiente.
      No firmamento, para espreitar o que se passava cá em baixo, na Terra, a lua cheia, passeava altaneira, lançando os seus raios de prata, que envolviam as ameias do castelo, em limalhas de luz, dando até a ideia que cumprimentavam e envolviam os espectadores na sua magia, incutindo no seu espírito que, naquelas ameias, haveria grupos de mouros escondidos, num jogo de esconde, esconde, e se preparavam para conquistar as damas, que lhes arrebatavam os corações, estas, por sua vez, encontravam-se escondidas nos segredos das muralhas.
      Depois da grande homenagem, também ela simbolizada, por fartos aplausos, que parecia não ter fim, o espectáculo musical começou com um fado interpretado por Amália Maria, que provocaria no público uma sensação de paz, bem estar e de euforia e, simultaneamente, pela voz e pela bela figura da jovem fadista, que se apresentou envolvida na elegância dum vestido preto e rendado, que lhe realçava a beleza morena, mas dissimulava o volume do seu abdómen. Seguidamente, o público, rendido, pediu para que ela cantasse outros fados e ela acedeu e fê-lo com o prazer de quem gostava de cantar e agradar aos seus admiradores, mas depois, quando sentiu que o cansaço lhe começava a invadir o corpo e o espírito, fez sinal ao seu companheiro, para que ele ocupasse o seu lugar e Raul, sorridente, avançou na sua direcção, pegou-lhe numa mão, como já o tinha feito em vezes anteriores, e levou-a até junto do público, como se a apresentasse pela primeira vez, articulando, a seguir, um pequeno discurso, o seu discurso de despedida, onde passaria a expor e a confessar o que lhe ia na alma, naquele momento:
      “- Esta noite é para ser vivida com alegria, porque tanto eu, como Amália Maria, e devido à vossa preciosa colaboração, propomos torná-la numa das mais bonitas e alegres da nossa existência. No entanto, nunca será demais deixarmos de lado, ainda que por momentos, a referida alegria, para expormos algumas tristes realidades, com que os jovens se debatem, presentemente. Por exemplo, a falta de emprego e de condições adequadas e condignas, para poderem usufruir de melhor vivência, nas suas regiões. Ainda que haja gente que defenda o contrário, nunca foi, nem será tarefa fácil sairmos das nossas terras, das nossas casas para deixarmos as nossas famílias e os nossos amigos, tendo em vista outro destino e outras paragens, quase sempre desconhecidas, em procura de melhor vida, porque o meio onde nascemos e mantemos, bem seguras, as nossas raízes não no-la podem dar. Amo, ardentemente, o meu Alentejo, que continua a guardar os meus maiores tesouros físicos e sentimentais. Aqui dão-me amor, que representa o sentimento mais forte que existe à face do Universo e mais poderei ambicionar, vindo do meu semelhante. A Terra é boa, tem magia, convida-nos a conhece-la e a amá-la, mas a Terra que possui aquele sentimento, que nos indicia a que lhe chamemos, carinhosamente, de mãe, pertence somente a alguns. Creio que compreendem o que quero dizer, porque eu sempre a amarei, independente do que ela foi, ou poderá ser no futuro.
      Para a maioria, dos que aqui vivem, forçosamente, e sem no querer, ela representa mais a função de madrasta. Foi por sentir que ela me tratava, com o último sentimento que referi, que a deixei, mas a que custo...? Senti medo e desgosto quando tive de partilhar outras amizades e enfrentar os usos e os costumes da nova terra que me abriu os braços e acolheu. Com todas as contradições que encontrei, Lisboa foi e será sempre a minha segunda, ou terceira Terra, porque para além da minha aldeia, “tenho outra mãe” na bela Reguengos, que também me acolheu e ainda há o Barreiro... Claro, que a causadora de eu me ter afeiçoado, tanto, à nossa bela Capital, seria a senhora que se encontra a meu lado, o maior tesouro que lá encontrei. Só por essa razão, valeu a pena ter sido para lá ”desterrado”. Mas sermos forçados a abandonar a nossa Terra é um dos pontos negros com que nos debatemos, o outro, bem mais negro e trágico, será a nossa partida involuntária para uma guerra, que sentimos não ser nossa, nem nos pertencerá.
      Não posso mencionar tudo, o que realmente me assombra a alma, porque correrei o risco de ser incompreendido pela insensibilidade de algumas pessoas e ser castigado, mas que maior castigo me poderão “eles” infligir, para além daquele a que já me condenaram…? Vou ser “desterrado” e obrigado a passar mais de dois anos a combater na mata, em Moçambique... e deixarei a Terra e a minha família, que muito amo. Dentro de poucos meses, entre muitas, nascerá uma criança, que é meu filho, e eu interrogo-me, vezes sem conta, se um dia a poderei vir a conhecer, mas não encontro resposta e acrescento, que é dramático e triste saber que me vão juntar a centenas de homens, no porão dum navio, que não terá condições dignas de albergar um ser humano, para me despejarem depois num País, em guerra, a milhares de quilómetros de distância, com a incógnita de não saber se voltarei a pisar solo Lusitano…
      Bem, creio agora, que chega de retórica, da minha parte, porque a que acabei de usar não será propriamente das mais agradáveis de se ouvir, no entanto, sou sensível e estou convicto que as verdades nunca são demais, serem ditas, nem ouvidas, até porque, e vendo bem, calculo que não haverá uma única família, no nosso infeliz País, que não tenha um dos seus elementos envolvido numa, ou em ambas as situações que acabei de mencionar. O espectáculo vai prosseguir, sem laivos de tristeza. Comunico que a alma do nosso Povo venceu mais uma vez, porque tanto a noite, Amália Maria e a Lua, aqui em Monsaraz, foram as inspiradoras de mais uma letra, que dedicarei à minha companheira e aos sentimentos mais profundos, que nos envolvem a ambos, que se caracterizam no amor e no fado.
      Embalado por ecos da planície, que chegavam ao Castelo, como espíritos da terra, Raul foi escutado com muita atenção, e em silêncio, porque as pessoas que ali se haviam deslocado, para o ouvirem cantar, concordaram, em absoluto, com o que ele tinha dito, aliás, ele apenas tinha dado voz a sentimentos que lhe ensombravam a alma, mas receavam proferi-las em público, pela segurança das suas integridades física e moral. A PIDE, até nas paredes tinha aliados, que denunciariam qualquer honrado cidadão, por menos do que ele havia referido, e levavam-no à prisão e à tortura, se assim o entendessem, além disso, gostavam da presença cativante de Raul e de o terem ouvido falar, porque o achavam mais solto que quando ele vendia “caféi, macarrão, entre outros géneros”, na Loja do senhor António. Afinal, a mudança, da sua Terra, para Lisboa e a companhia de Amália Maria, haviam frutificado, sendo benéficas para a construção da sua estrutura mental e cultural. Ele tinha deixado de ser o rapazinho imberbe e inculto que eles haviam conhecido outrora, e fora, também, graças ao esforço que ele havia despendido, para se tornar um indivíduo detentor de maior número de conhecimentos, que quando havia estado empregado, em Reguengos.
      Amália Maria sorriu, depois da forte emoção, por que tinha passado, relacionada com o amuo de Raul. Ela fora apanhada de surpresa, pelo actual estado de espírito do seu companheiro e acreditou, como alguém já lhe tinha revelado, que a envolvência com a fragrância da Terra Alentejana, costuma produzir magia, a magia que se alia à fina sensibilidade de alguns indivíduos, ou à inconstância do seu carácter, que despertou momentos de grande inspiração, a Raul, ali em Monsaraz, e o levaram a compor a letra dum novo fado, em poucos minutos. Sob o olhar circunspecto da sua companheira, Raul fez um sinal aos músicos para que o acompanhassem, com os seus instrumentos musicais e cantou, para satisfação dos espectadores: “Se ser fadista é pecado/E minha existência destrói,/Entreguei a alma ao fado, Espero que Deus me perdoe./É loucura um grande amor,/Como loucura é o fado,/Serei o maior pecador/Se ser fadista é pecado./Este fado que me encanta/É sentimento que dói,/Quando me sai da garganta,/E minha existência destrói./Vaidoso como ninguém,/Faz-se sempre bem amado,/P’ra que me amem também,/entreguei a alma ao fado./Se é parte do meu viver/E a minha sina constrói/Por ao fado tanto querer/Espero que Deus me perdoe”.
      Sob a dádiva de calorosos aplausos, que encontraram eco nas ameias do Castelo, Amália Maria, abraçou-o e proferiu, amantíssima:
      - Deus, não terá de te perdoar, em nada, aliás, Deus vai-te recompensar, pelo que tens feito, por divulgares e enobreceres o fado, o próprio fado estará, com toda a certeza, reconhecido pelo que tens feito por ele, para que seja feita justiça aos seus atributos. Em seu nome, eu te agradeço.
       - Não tenho assim tanta certeza, sobre o que acabas-te de dizer, porque o fado é destino, que é descrito como fadário, entre as várias definições que lhe fazem. Quem sabe se o fado, para me envolver com o seu destino, não me vai arrastar para o seu fadário, um fadário de sofrimento? As minhas perspectivas de futuro não são de bons augúrios... – referiu Raul, como se um “sininho” o despertasse para prováveis consequências, no seu futuro.
      - Não deves ser tão pessimista, Raul, porque o fado, o nosso destino, vai proteger-nos, como um bom amigo, que nos estima e a quem nós muito estimamos. Tenho quase a certeza que daqui a pouco mais de dois anos vamos estar neste mesmo local, a cantar, para estas pessoas, num concerto mais caloroso que este e com o nosso filho a escutar-nos, e a pendurar-se no meu vestido, como o mais maravilhoso espectador.
      - Que o destino se cumpra como o auguras, por que eu não tenho tanta certeza, provavelmente devido ao momento difícil que estou a atravessar. Pressinto que, para nós, nem tudo de bom vai acontecer no futuro, mas o meu estado de espírito, provavelmente, visiona uma irrealidade, sem consistência.

      À distância, indiferente a ressentimentos e à voz dos homens, no sossego da planície, o Rio Guadiana também cumpria o seu eterno fadário: “ser espanhol por nascimento e obrigado a percorrer e a irrigar terras de Portugal”.


Fotografia de Monsaraz: Luis Lobo Henriques 

 (08.10.2015)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.09.2015


É bom ficar assim entre quatro versos como num aprisco que rodeia as ovelhas, e submerso no poema espantar as palavras, enquanto um rafeiro ladra às rimas. Confesso-me pastor de sílabas a vigiar os silêncios e os lobos da noite. Mas hoje estou virado para um texto que faça as vezes de uma crónica, ou coisa que se pareça.

 Do alto da minha imaginação, não tão alta como a torre de menagem, avista-se o reino e é quase certo a julgar pelos cartazes que anunciam o espectáculo, que por esta hora, o circo já terá invadido a cidade. Não há bailarico nem feira que não tenha as ilustres visitas!




 Os mágicos e ilusionistas à frente, logo seguidos dos malabaristas, dos trapezistas, dos futuros ministeriáveis de sorriso aberto e gesto afirmativo em jeito de concordância e na cauda do cortejo os bobos. Um número com um animal feroz faria aumentar a assistência mas desta vez… pode não ser bem assim. Há quem prefira dois papagaios, agora um, depois outro, para repetir a mesma coisa: -Dá cá o pé! – Dá cá o pé! Ou o voto?

Na hora do noticiário está garantido o tal directo para largar duas ou três larachas e o povo assiste já habituado, ao cíclico renascer do Sebastianismo e à alternada festa do poder, entre discursos balofos e anunciados debates. É a festa que todos pagamos!
Sem qualquer pretensão literária deixo-vos com um diálogo Improvável entre dois pêpês. O leitor que escolha. Deixo algumas possibilidades: Pôncio Pilatos, Paulo Portas, Público Privado, Pedro Passos, Paio Pires, Papa Pilas, Pronto Pagamento…


- Sabes o que me parece? Muitos milhões! Apetecia-te gastar? Fosses de feira em feira ou fizesses uma perninha com os chineses que desde a EDP não nos largam a porta. Muitos milhões. Aliás demasiado para um investimento que não se vê.

- Mais milhão menos milhão… e essa do não se vê, não é bem assim. Não se vê mas avista-se. Quando vem ao de cima, claro que se avista!
- Olha eu é que não lhe meti a vista em cima. Já aqueles Alemães que engavetaram, talvez não digam o mesmo.

- Ah sim…engavetaram alguém? Só tenho seguido aquele episódio do Zé, mas há gente capaz de tudo. A Ângela? Quem diria… engavetou mesmo?

- O que te quero dizer é que com tantos milhões bem se podia comprar uma dúzia de barcarolas para vigiar a costa. Já imaginaste? Os contribuintes a banhos, deitados ao sol que nem lagartixas, eles a espalharem os cremes nas costas e de repente a acenarem ao investimento. Elas em gritinhos histéricos: Olha ali Pedro, olha lá ao longe… está a vê-lo? E num aceno gracioso dando vivas. Isso sim tinha sido uma excelente ideia e como eu diria, um investimento à vista.

- Que engraçadinho! Toda a gente a acenar e a ver passar os navios… que vigiam a costa! Ora aí tens tu muito que fazer. Deixa a costa em paz e preocupa-te mas é com o Costa.

- Estou absolutamente, confiante e seguro!

- Seguro? Olha o outro também estava e zás, puxaram-lhe o tapete. És muito novato. O que é preciso é ter sentido de estado, ouviste? Às vezes até me fazes lembrar aquele coelho de orelhas retorcidas da Alice no país das maravilhas. Sentido de estado e jogo de antecipação.

- Mas repara nos números, esses milhões davam para muita coisa. E tu o que fizeste? Compras-me aqueles supositórios sem graça, que passam o tempo debaixo de água e gastam uma pipa de massa cada vez que são revistos. Estou mesmo a ver quem esfrega as mãos de contente!

- Lá vem ao de cima a tua falta de antecipação, e pelo contrário, o meu sentido de estado, a minha visão de futuro que me diz que o que fiz está certo e para que saibas, além de irrevogável sou como o outro. Também não tenho dúvidas. Isto, mais dia, menos dia, vai tudo ao fundo. Então não te parece uma compra acertada. Parece ou não?


Um submarino para mim outro submarino para ti… e a vida sorri!




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.09.2015 
(fotos internet)

sábado, 1 de agosto de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.08.2015

Exaltação Alentejana

Elevam-se hoje os campos àqueles que com os olhos postos neles os amam já pela admiração. Elevam-se, os pequenos campos, e podiam dizer-se outrora morada do Deus que tudo de belo cria, tão altos, beijando suavemente o azulado suave de um céu aberto que não sabe mais que dar boas-vindas.

Abertos encontram-se também os braços beijados pelo mesmo dourado que pinta planícies, como se de ouro, pelo dourado que queima docemente qualquer um que ouse calcorrear calçadas e veredas estreitas, velhas mas sábias, com histórias para contar que nem eu mesma conheço.

Tudo o que aqui se faz, faz-se com amor e orgulho embrulhado em peitos que alentavam as mãos feridas que ergueram colinas e casas – casas e lares, que não são apenas de quem os construiu mas de todos aqueles que, hoje, melhor os  decoram. Com palavras gentis e sorrisos, olhares perdidos para lá do espelho de água, perscrutando a beleza da serenidade da natureza alentejana que perante si se ergue, senhora mãe e senhora filha – em cada momento fazendo-se fénix.

Eleve-se hoje o refúgio da parafernália quotidiana, da contemporaneidade amestrada e manipulada e nele se fechem os olhos para que o vento corra, criança, de mansinho pela pele. Nele se fechem os olhos, principalmente, para escutar o silêncio das vozes, roucas e vibrantes de quem canta da Humanidade o pequeno oásis que é Monsaraz. – Quando a ele se chega nunca mais dele se parte.

Mas que seria a glorificação de pai, sem seus filhos? Que seria falar de Monsaraz sem falar de todas as pequenas aldeias que grande discurso nos deixam na memória – em histórias pinceladas, cristalizadas na simplicidade do barro que é o pó que os nosso pés pisam e que nasce da magia ancestral de quem sabe amar a sua tradição; em rochas que encerram em si o poder da crença ainda menina resultando dela um sorriso aberto quando a pedrinha se equilibra na Rocha dos Namorados; na cidade de onde provém o elixir que próprio Baco teria cobiçado. Que seria, ainda, não falar deste cantinho que hoje se estende por fotografias e melodias e esplanadas e varandas que nos deixam sempre a mesma sensação: é tão grande o mundo, mas tão maior o Alentejo. Mas tão maior a distância entre o Alqueva e o céu. Mas tão melhor a proximidade da vida á terra, onde a vida e a terra se misturam numa só. Como sempre o foram.

Cante-se, em uníssono, as belezas destas muralhas ao sol, o seu reflexo naqueles que as carregam às costas como suas, por suas. Cante-se a vida. Serena, apaziguadora. Cante-se o canto de anos e anos de madrugadas frescas e tardes solarengas, molengonas, como por cá dizemos, porque por cá dizemos. Cante-se isso tudo com o canto das aves, e o sussurro das águas, e as gargalhadas com o forte sotaque característicos e cante-se a nossa terra. Cante-se a nossa origem. Cante-se o nosso orgulho, porque ele pode e ele deve e ele vai.

Sem importar gerações, géneros, crenças. Cante-se o simples esplendor da natureza em comunhão com a humanidade onde a natureza e a humanidade se seguram e se apoiam mutuamente.

Elevo hoje o cantinho á beira Alqueva plantado, cantinho lato no meu coração. Cantinho lato na minha canção. Cantinho, que será, sempre lato na minha condição.


Quando a nós ele  chega, nunca mais de nós ele parte. 

Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.08.2015
(Fotografia de António Caeiro)



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Rui Dias José)_01.07.2015

Se os rios correm para o mar…
O Guadiana atrasa o passo em Alqueva
como se esperasse pelo Degebe

Nas calmarias do Verão, lento e sereno, o fio de água em que se convertia o Guadiana. Quase raso, ali defronte do Castelo de Juromenha… com a margem de Olivença ao alcance de uma passagem a vau.
Mesmo com pouca água, o rio valia a contemplação. Mais que não fosse, para esquecer as águas fétidas que corriam a montante, por baixo das pontes de Badajoz.
Já em Portugal, vinham em seu socorro outras - bem mais cristalinas - com os que os rios do lado de cá lhe aumentavam o caudal e devolviam ares de curso de água vivo. Que, em direcção à Foz, ia refrescando margens e recuperando o movimento de peixes.


E, se é certo que no Pulo do Lobo quase desaparecia no Verão, chegado a Mértola convidava para todos os mergulhos. Mais a baixo, voltava a ser navegável… com aquele lago que une Alcoutim a Sanlúcar e a descida magnífica até Vila Real de Santo António.


Podem dizer à vontade que o peixe de rio tem muitas espinhas, mas sempre que pude não o deixei escapar. E mal o suspeitava no prato, era de devorar… Cozido, grelhado, de caldeirada: Fosse como fosse! A Juromenha muitas vezes fui no encalço das carpas. E guardo memórias de convívio e sabor de caldeiradas lá para as bandas do Pomarão.
Dos braços de água que alimentam o grande rio do sul, foi sempre o Degebe que mais me atraiu para todas as contemplações e passeios. Até à Amieira, em terras de Portel. No aconchego das margens, nas sombras das suas árvores, no voo dos seus pássaros.


Depois, o Guadiana fez-se lago. Agigantou-se, cobriu montes, transbordou para onde (há uns anos!) ninguém suspeitaria. Perdeu a sua alma de rio, para ganhar a imensidão de horizontes líquidos de grande Mar Interior. E há até quem, nunca o tendo conhecido humilde, diligente e esforçado, só se reveja na imensidão de água que Alqueva veio represar. Como se ela tivesse nascido ali e não estivesse lá porque escorre margens abaixo em direcção à foz.
Da construção da barragem derivou uma impressionante mutação de paisagem. Que arrastou mudanças de cores, de sons e de cheiros. O Alentejo agora ribeirinho terá pouco a ver com o que era. Até em termos climáticos! Porque aquela imensa massa de água - com incidências de evaporação, de conservação e transferências de calor - não deixa por mãos alheias a sua força e o seu poder.
Pelo meio, ficou o sacrifício da Aldeia da Luz, com o que dela resta repousando no fundo das águas. E uma aldeia nova sem vida e nem alma. Um dia destes, até sem gente para usufruir das tais infraestruturas criadas para acolher os habitantes da velha aldeia. Estiolando aos poucos… E, apesar do que ali foi erguido para celebrar as memórias submersas, quase sem ninguém que a queira conhecer e visitar. Esquecida até do corrupio de gente que a demandou nos anos que antecederam o seu afogamento. Quase da mesma forma que, quem tinha obrigações nesta área, se esqueceu das promessas todas - solenemente comunicadas aos seus habitantes - em relação ao novo lugar para onde iriam ser transferidas as suas vidas.


Os castelos, que eram de defesa e vigilância às arremetidas dos de Castela, são agora varandas e torres de observação privilegiadas da paisagem que a água trouxe. Monsaraz sabe-o-bem, e as esplanadas sublinham. Mourão está a descobrir.
Resta agora saber das capacidades e da imaginação para aproveitar aquela água toda. Que era para ser para a agricultura, acordou para a energia eléctrica e agora toma ares de aposta turística.


É nestes contextos e cenários que vêm ao de cima os sinais de falta de diálogo entre gestores e usufrutuários das águas. Aliás, não discutindo pressupostos de defesa da saúde de pública, tornam-se notórias as diferenças de atitude entre o lado português e o espanhol do Grande Lago. Na banda de cá (e se calhar bem!) determinou-se que o usufruto das águas para refrescantes banhos teria de ficar adiado por uma janela temporal de segurança. Do lado espanhol investem em praias fluviais e não olham a essas coisas. Estranho, no mínimo! Ou eles já vinham habituados às poluídas águas do Guadiana à saída de Badajoz?
De qualquer modo, e como não haverá capacidade para policiar tantos quilómetros de margem, não se estranhe que (à surrelfa) também do lado de cá vão existindo mergulhos. Se numa qualquer actividade promocional de navegações no Alqueva até houve uma estrela das telenovelas que não se escusou a um banho para que os fotógrafos fizessem os bonecos…




E que deve ser difícil estar ali na beirinha de água, com esta caloraça do Verão, a resistir aos apelos e vontades… lá isso deve! Apesar de todas as determinações em contrário. Também… quando se fazem desportos  aquáticos como é? Já houve campeonatos de natação, de saltos para a água e outras coisas que tais…
Uma empresa da área do aproveitamento turístico das águas de Alqueve escreve mesmo no seu site: “As férias rimam bem com banho e mergulhos! Encontrará ao longo do percurso lugares propícios ao contacto com a água.”

Afinal como é? Mergulha-se? Não se mergulha? Se alguém souber alguma coisa de concrecto, informe. Que é para isso que os comentários da página também servem… :)

CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Rui Dias José
01.07.2015 
Fotos: Café Portugal

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Luís Filipe Marcão)_01.06.2015


   Escolho o caminho de S. Pedro, o maior centro oleiro, para voltar a Monsaraz e às crónicas do Alto da Vila, mas sem nada previsto quedo-me pelo sopé onde estendido como preguiçoso lagarto ao sol, encontro o Telheiro e a minha velha escola que um benemérito da terra, de nome Caeiro, percebendo a importância do ensino, mandou construir em tempos idos.

 Edifício simples de arquitetura semelhante a muitos outros do estado novo. Pequeno átrio de entrada a dar acesso a uma única sala que reunia as quatro classes. Cá fora três arcos a sustentar um alpendre que servia de abrigo aos desacatos do tempo e um terreno murado que durante o recreio se transformava em torneios de pião, do berlinde, jogo do eixo ou do funcho. Todas as brincadeiras tinham um calendário preciso que era aceite sem contestação.

Na sala de aula o mobiliário rudimentar precisava de reforma. A secretária de pinho da professora, com duas gavetas onde se escondia uma palmatória que nunca vimos, mas que a D. Conceição, bondosa e paciente assegurava existir. O quadro negro, três filas de carteiras de dois lugares onde se anichavam separadamente as raparigas e os rapazes. Ao lado da lareira que poucas vezes servia, um armário que continha alguns livros, o boião da tinta permanente que haveria de encher os pequenos tinteiros  e um saco de leite em pó que em certas ocasiões era distribuído pela turma. Creio que no Natal e na Páscoa.

Ainda hoje recordo aquela bola que se formava, pegava ao céu da boca e ia derretendo lentamente, deixando um sabor que forrava as paredes do estômago com sumarenta quietude. Na parede dois mapas, o do continente e o das colónias, terras de costumes bárbaros onde o Manuel que era o sapateiro da aldeia já quase mestre, morreu com um tiro na barriga. Gastos do uso, os ditos, meio desfiados mais pareciam pergaminhos, e a ladear o quadro de ardósia as figuras imponentes do regime: O almirante de fato igual ao homem dos gelados a que não faltava o boné branco e o professor Salazar, muito sisudo, de olho na turma, não fosse haver alguma sublevação! No meio, um Cristo crucificado e tornado escuro pelo óxido do tempo.

 Estaciono o carro à sombra do posto da GNR e bem guardado, fico ali com o silêncio a pesar-me nos ombros, o dia a queimar-me em palavras … as recordações a empapar-me a memória enquanto o sino de Monsaraz bate as duas da tarde.

 A minha escola! A minha mas também a do Zé António, do Evaristo, do Chico, do Inácio, da Paula, da Catarina, da Suzete, da Benvinda e muitos outros que ali aprenderam, trocaram saberes, partilharam momentos e fizeram adormecer a manhã soletrando num som monocórdico a cantilena morna da tabuada. Ali aprendemos de cor e salteado os rios e afluentes, as serras e os mares e de dedo indicador espetado sobre o mapa, viajámos por comboios imaginários.

 Um dia a escola fechou, como tantas outras por esse país fora.

 Era fácil esgrimir argumentos falaciosos. Fazer outras contas que não as da aritmética simples que aprendemos. Outros jogos que não os do antigo pátio murado.


 Vieram senhores ilustres falar de progresso, de tecnologias, de rácios que ninguém percebia e o último miúdo vestido de bibe aos quadradinhos azuis, deixou rolar duas lágrimas, (como o tal menino do quadro das feiras que toda a gente pendurava na parede da sala), antes de entrar para o autocarro que o iria levar para outra escola mais distante para satisfazer os desejos economicistas dos senhores bem falantes que usam fato escuro e sorriso para todas as ocasiões.




CRÓNICAS DO ALTO DA VILA
Luís Filipe Marcão
01.06.2015
(fotografia da CMRM)

Para acompanhar também no Facebook AQUI


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Monsaraz 360



“Monsaraz 360, visita interativa a uma das mais belas vilas de Portugal.

Monsaraz 360 (www.monsaraz360.pt) é o novo site interactivo, que permite conhecer a história e o património arquitetónico da vila medieval de Monsaraz. Este é um dos primeiros sites nacionais com uma visita interativa completa a uma localidade através da tecnologia 360º HDR e de novos media para computador e smartphones.

O site é bilingue, em português e inglês, tem galerias de imagens dos fotógrafos António Caeiro, João Fructuosa e David Ramalho, a história da vila, visita interativa 360 graus e o mapa de localização com informação das povoações mais próximas. As empresas locais poderão ter visitas interativas e assim ficarem associadas ao projeto.

Na visita 360 graus é possível navegar de forma interativa através dos pontos mais importantes de Monsaraz e aceder a informações sobre a sua história. O percurso começa na Ermida de S. Bento, localizada no exterior das muralhas da vila, dando a possibilidade de conhecer as paisagens com temperaturas mais elevadas do Alentejo e o verde que é acompanhado por um pôr-do-sol em mês primaveril.

No segundo ponto, a porta da vila, começa a descoberta das ruas históricas de uma das mais belas vilas de Portugal, percorrendo a Rua Direita, o largo de D. Nuno Alvares Pereira e a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa até ao castelo de Monsaraz, com vista panorâmica para a paisagem da região.

A visita interativa faz-se por ícones que identificam o local mais próximo, tal como se fosse um guia turístico interativo ilustrado, e através de pontos apresenta a história, alojamentos, restaurantes e lojas de artesanato e de produtos regionais. Poderá ser feita também através de um mapa com a tecnologia Google Maps para uma localização mais abrangente e miniaturas de acesso rápido ao ponto de interesse.

Foram realizadas versões da visita para computador, tablet e telemóvel (sistemas operativos Android e iOS). Através de dispositivos móveis é possível a quem visita a vila medieval ter acesso a informações úteis dos principais pontos de Monsaraz, ao Guia Turístico de Reguengos de Monsaraz (em formato pdf) e a eventos que vão acontecer na localidade. Os utilizadores podem ainda mostrar fotografias e contar a sua experiência em Monsaraz nas páginas de facebook “Reguengos com Vida” (www.facebook.com/ReguengosComVida) e Grupo de Facebook de Monsaraz (www.facebook.com/groups/monsaraz/). O trabalho é da autoria de Nuno Madeira, fundador do estúdio digital WIDE e do site 360cityguides, que é dedicado à divulgação do património cultural nacional através da tecnologia 360º e de novos media.”
Texto: Sapo
Fonte: Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crónicas do Alto da Vila (por Inês Valadas)_01.05.2015

Um retrato desconhecido

Nas faces guarda os sulcos marcados a memória das colheitas de uma vida. E uma vida não chega apenas para contar das colheitas os dias em que o sol ainda não nascia em seus olhos de amêndoa, vespertinos. Hoje deixam-se descair como a noite; um rasgo de luz sobre o breu das colinas a silenciar os animais que comungam da aragem.

Soubéssemos nós da força dos braços, de como ainda dele se padecem e se levantam, quais riachos, pequenos e suaves ainda as agruras do fado descem. Sabe-se tão pouco desta terra intensivamente arada, mãos feridas e saradas a cada nova madrugada, porque a madrugada é o tempo de nascer e prontamente ser e não existe ser que nesta Terra não viva.

Na nossa terra vive até aquele que jaz – No eco das vozes que as paredes guardam, regozijando-se, por conseguirem então cantar.

Cantam paredes e cantam vozes que contam mais do que há para contar; sabem da história os remorsos e as felicidades de a história lhes ter dado morada à beira-rio.

Que é este azul cristalino e profundo que se estende, senão lágrimas recusando sal de quem da beira do Alqueva fez o seu lugar? – Lugar mais que lugar, lugar de ficar! Pois que todos que o visitam o querem consigo levar e não existe quem o leve tão grandiosamente quanto aqueles que o sabem amar.

Amor. O amor denota-se nas mãos engelhadas, cansadas de dar forma ao pó original, para lá do amor um grande e doloroso amar. – nunca se cansa de contemplar a sua obra e a sua obra é já doutros para (nunca) terminar.
                
Estendem-se nas tardes tórridas na soalheira do que a natureza dá e entoam saudades de menino – de pernas ágeis a saltar muros tão mais novos, de pés menos tortos a calcorrear pedras menos desgastadas- que esquecem repentinamente quando é hora de voltar a casa.
               
  As faces mais jovens ficam perdidas entre a imensidão do céu e a da terra - procuram saber qual a magia e enquanto o perguntam já rostos desfigurados de tempo esperam para responder que dos segredos do mundo pouco se sabe.

                
             Não se conhece Monsaraz sem se conhecer as suas gentes, pois as suas gentes são quem faz Monsaraz. Não se lembram bem as ruas se se descura a menina de outro tempo sentada à porta vendo os transeuntes passar. Não se podem descobrir as doçarias sem o simpático jovem do café mais próximo, nem saber quão confortável é o passeio sem o senhor que avança e escala as ruelas ainda com fôlego para um bom dia bem frisado.
                
              É por isso que este retrato é desconhecido – porque não se limita a ser retratado; não se permite embelezar mais do que aquilo que demonstra e qualquer descrição peca pela falência das palavras. No entanto nunca mais se esquece depois de ser apreciado.

Ficam-nos os olhos amendoados e as faces envelhecidas, ficam-nos as mãos engelhadas e enegrecidas pelo sol e pela terra, fica-nos a sensação das rochas a passar por baixo das palmas dos pés e o sonoro calmo e paciente de uma terra alentejana.

E se nos acautelarmos em atenção, o retrato não é apenas exterior. Vive connosco e depois vive através de nós.


Essa, jovens, seja talvez a principal magia. 


Crónicas do Alto da Vila, por Inês Valadas 
01.05.2015
(Fotografia de João Fructuosa)

Para acompanhar também no Facebook AQUI